sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A ABSOLUTA NECESSIDADE DA EXPIAÇÃO NA PERSPECTIVA REFORMADA

A DOUTRINA DA EXPIAÇÃO NA PROGRESSIVIDADE DAS ESCRITURAS

A Expiação de Cristo direciona os nossos pensamentos a Deus como Aquele cuja santidade governante demanda satisfação, cuja justiça inflexível insistiu que suas demandas sejam cumpridas plenamente, e cuja lei reta deve ser magnificada e honrada, antes que quaisquer bênçãos resultantes pudessem fluir aos Seus eleitos, considerados como os filhos culpados e depravados de Adão. Deus “ao culpado não tem por inocente” Êx 34:7. Muito diferente daquilo que se passa por amor na esfera humana, o amor de Deus vai de encontro à lei; não é exercido em desafio à justiça. Deus é “luz” (I Jo 1:5), bem como Ele é “amor”; e porque Ele assim o é, o pecado não pode ser ignorado, sua odiosidade minimizada, nem cancelada a sua culpa. Isso é verdade, que onde abundou o pecado, superabundou à graça, Todavia a graça não abundou à custa da justiça, antes, “também a graça reina ‘através' da justiça” (Rm. 5:21).


1 Definição Do Termo e Fundamentação Da Doutrina Da Necessidade Da Expiação No Antigo Testamento
Nessa etapa se faz necessário analisar a fundamentação bíblica a partir da sua definição e do termo em que nos basearemos.

1.1 Definição do termo no Antigo Testamento
A palavra hebraica mais comum no Antigo Testamento para designar os vários tipos de expiação é rPEïk (kãphar). Literalmente a palavra significa “cobrir”.
Clark (1988, P. 309) assim define o termo: “Expiação significa purificar, lavar, cobrir, fazer reparação, dar satisfação, especialmente sofrendo uma penalidade ou castigo, como no caso da expiação de um crime. Sofrer a penalidade importa em assegurar a remissão”.

O sentido exato de expiação é o de fazer algo que reconcilie duas partes em litígio. Uma vez que o homem entrou em litígio com Deus pela desobediência, havia necessidade de oferecer a Deus algo que restaurasse a comunhão perdida. Quem ofereceu essa solução ao homem foi o próprio Deus, conforme está provado pelos exemplos expostos. Essa ação revela a Sua extrema bondade, Sl. 103, com ênfase nos versos 3-5: “É Ele que perdoa todas as tuas iniqüidades, e sara todas as tuas enfermidades; quem redime a tua vida da perdição, e te coroa de benignidade e de misericórdia; quem enche a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a águia.” Como se sabe, a águia vive muitos anos e, com a muda das suas penas, até parece rejuvenescer. Assim será com os que confiam no Senhor.
Por outro lado, a oferta sacrificial do homem revela a sua vontade de propiciar o seu Criador para reencontrar a paz e a comunhão. Visto o sangue ser o símbolo tanto da vida como da morte, era necessário usar o sangue da vítima para libertar o transgressor da condenação à morte.



A expiação de culpa no Antigo Testamento somente é possível mediante o sacrifício de animais com o derramamento de sangue; e o derramar do sangue propiciava o povo enquanto indivíduo e enquanto povo a estar na presença de Deus sem ser aniquilado. Os animais sacrificados representam o castigo aplicado como conseqüência da violação da justiça de Deus e o sangue derramado e aspergido sobre o altar proclamam a remissão e o perdão dos pecados. O Antigo Testamento fornece provas suficientes desta compreensão; e a grande tese que permeia toda a Escritura “sem derramamento de sangue não há remissão de pecados” (Hb. 9:22).
No Antigo Testamento, a Expiação é usualmente declarada como algo obtido por meio dos sacrifícios, e assim é entendido que a Expiação era obtida não por qualquer valor inerente na própria vítima oferecida, mas sim, porque o sacrifício é o meio divinamente apontado para fazer Expiação.
Como alega Groningen (2002, p.385):


O altar falava dos meios pelos quais os adoradores deveriam se aproximar de Yahweh. Suas ofertas e sacrifícios eram colocados sobre o altar e consumidos para honra e glória de Yahweh. O altar, por essa razão, também falava do abismo que existia entre Yahweh e seu povo devido  ao pecado a à culpa. No altar, porém Deus Yahweh, em toda sua glória, se encontrava com o pecador, e os sacrifícios falavam da remoção da ofensa que separava o pecador de Deus. Assim a ira de Deus Yahweh era removida; Ele estava reconciliado ao pecador transgressor.  

E o ponto inicial que à Bíblia nos relata a respeito de oferta de sacrifício está em Gn. 4.4-5 “Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta.”. Muito embora, não seja mencionada a palavra sacrifício neste texto, que indica, literalmente, apenas a idéia de oferta como tributo, como sugere o termo no hebraico: hx'n>mi ( minha)  - e tem como significado: tributo, o presente de um inferior para um superior. É interessante notar que o que fora oferecido ao Senhor por Abel e que fez com que o Senhor se agradasse dele e de sua oferta foi exatamente o fato de esse ter oferecido o primeiro (primícias de seu rebanho) e o melhor ( e da gordura deste), o que denota o espírito voluntário de Abel, que era movido tão somente pelo sentimento de adoração a Deus, prescrevendo exatamente o pressuposto da oferta. Abel ofereceu seu sacrifício motivado pela fé, conforme. Hb. 11:4., ou seja, em resultado a uma autêntica espiritualidade, em legítima obediência a Deus. No Sl. 51:16-17 estão os tipos de ofertas aceitáveis a Deus: coração compungido e contrito, requisitos preenchidos por Abel. Quanto a Caim, esse fator se fez ausente. Isso posto, seu sacrifício não visava honrar a Deus. Ele estava apenas cumprindo um dever, um ritual religioso desprovido de qualquer espiritualidade, e não estava se ocupando em adoração a Deus e as suas obras eram más conforme I Jo 3: 12. O texto não parece indicar que o que tornou a oferta de Abel aceitável e a de Caim recusável fora o fato de a primeira constar de sacrifício de um animal com derramamento de sangue, e a segunda não. O Senhor se agradara do desprendimento de Abel ao passo que de Caim se aborrecera por sua altivez.
Como sugere autor como Horton (1999, p.08):


“Abel acreditava que era perigoso se aproximar de Deus de uma maneira atraente, confortável ou simplesmente aceitável àquele que o busca. Ele ofereceu o primogênito de seu rebanho em sacrifício, assim como Deus havia ordenado em antecipação à oferta de seu único filho. Caim não poderia compreender porque Deus precisaria de um sacrifício sangrento”

A narrativa seguinte que a Escritura sagrada traz acerca de oferta ao Senhor é Gn 8.20, relata o ofertante oferecendo holocaustos sobre um altar. Diz assim o texto bíblico: ” Levantou Noé um altar ao Senhor e, tomando de animais limpos e de aves limpas, ofereceu holocaustos sobre o altar” . É notável que aqui já não é possível entender a oferta de Noé como tributo, uma vez que o texto é enfático em afirmar que o que fora oferecido, era a título de holocausto . E o fato de Deus ter aspirado positivamente a oferta atesta isto. Leia-se o versículo 21:”E o Senhor aspirou o cheiro suave e disse consigo mesmo: Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade, nem tornarei a ferir todo vivente, como fiz.” Após o dilúvio que destruíra toda a terra e todo ser vivente, Noé estava saindo da arca e oferecera uma oferta ao Senhor, da qual, o Senhor se agradara aspirando o cheiro suave desta. Essa referência ao olfato divino, antropomorficamente denota o prazer de Deus na oferta de Noé e como um sacrifício propiciatório, o holocausto, acalmou a indignação de Deus contra o pecado e o caráter gracioso de Deus é também sublinhado pela aliança estabelecida com Noé em que Ele promete não mais destruir o mundo com água.
A idéia de sacrifício pelo pecado aqui é mais clara. Deus havia destruído a terra por causa da corrupção do gênero humano conforme. Gn. 6:5 e reafirmado em 8:21. Agora, porém, depois de aspirar o cheiro suave das ofertas, está prometendo não mais destruí-la.


Kidner (1979, p.87) assim comenta esse texto:


Gramaticalmente, a frase porque é mau o desígnio íntimo poderia ser uma expansão de por causa do homem, ou senão o motivo para “não tornarei”. Teologicamente deve ser a primeira explicação: a resolução do Senhor, de não renovar a aplicação deste julgamento baseia-se no sacrifício aceito e não na incorrigibilidade do homem, que fora a verdadeira base do julgamento e ainda clamava por sua renovação; ela jamais pesa em favor do pecador.

De onde então advém a prática do sacrifício de animais com derramamento de sangue para expiação de culpa?
Faz-se referência a fabulas judaicas que afirmam que Adão, ao ser expulso do jardim do Éden erigiu um altar e sobre ele ofereceu holocaustos e que esse altar era o mesmo em que Caim e Abel ofereceram sua ofertas e que posteriormente fora usado por Noé e por Abraão quando oferecera seu filho Isaque. Mas esse refinamento não faz sentido.
Os povos semíticos, descendentes de Sem, um dos três filhos de Noé, um dos povos mais antigos da história, de onde teriam surgido os hebreus: (Gn. 10: 21- 31). Também utilizavam o sangue em suas práticas religiosas. Champlin (1999, p.5239) em nota acerca do sangue faz a seguinte referência aos semitas:


Os antigos Semitas identificavam o sangue com o principio da vida biológica. Por esta razão proibiam a ingestão de sangue, derramavam sangue sobre os altares consagrados, cobriam o sangue com terra, nos lugares sagrados ou aplicavam sangue a pedras que representavam deuses. Segundo eles imaginavam, desse modo, os perigos e maravilhas do sangue podiam ser controlados e utilizados. O sangue podia ser visto como perigoso ou benéfico. Por isso mesmo era aspergido sobre os batentes das portas para que a casa fosse protegida. Ou então os idosos tomavam sangue a fim de recuperar a vitalidade da sua juventude. E o sangue também era empregado nas cerimônias de purificação e expiação.

Textualmente talvez não seja possível identificar uma data ou evento que fixe o inicio do sacrifício vicário para expiação de culpa antes da implantação da Lei com todas as suas prescrições, normas e regras na forma e modo de apresentar tais sacrifícios como é minuciosamente descrito em Levítico; todavia, era uma prática sempre presente na saga dos patriarcas, a quem Deus chamara para com eles estabelecer uma aliança: Abraão (Gn. 12:7-8, 22;9); Isaque (Gn.26:25); Jacó (Gn. 35:1-14)., bem como de seus antepassados, Abel, Noé, em nota ao V. 20 do Cap. 8 de Gênesis.


 Champlin (1999, p. 76) argumenta:


“Andar com Deus governava a vida de Noé. Ele havia feito provisão para holocaustos, ao fazer entrar na arca certos animais de sete em sete, ou seja, três pares e um macho extra, designado para a alimentação e para o sacrifício Gn , 7: 2-3”.

Como Noé saberia da distinção entre animais limpos e imundos? Que subsídios teria para, depois de ter saído da arca levantar um altar e oferecer nele holocaustos ao Senhor? O v. 9 do cap. 6 é enfático ao afirmar que “Noé andava com Deus”. A mesma expressão é usada referindo-se a Enoque, Gn 5:22 e 24. Esse “andar com Deus” significa uma íntima comunhão e inclui, certamente, revelação especial, através da qual, Abel ofereceu sacrifícios a Deus, bem como Noé soube identificar os animais limpos para oferecer em holocausto ao Senhor.
Instituições fundamentais da lei como o Sábado, o santuário ideal, o sacrifício remontam à ordem da criação pré-diluviana e outros como o dízimo e a circuncisão remontam, pelo menos ao período patriarcal, todos antes da normatização da Lei.
Assim sendo, não é difícil entender que ao determinar a observância dos ritos sacrificiais, Deus não precisa explicar porque tais práticas eram necessárias. Era um costume que já fazia parte da vida do povo hebreu, herança religiosa de seus antepassados, adquirida por eles, certamente, por revelação especial.
Esse pensamento encontra suporte na chamada teoria piacular . O termo piacular – expiatório, vem do latim pio – expiar. Tal teoria considera todos os sacrifícios da era pré mosaica como sendo expiatórios ou reparatórios. Em todos esses sacrifícios, cuja idéia principal é a imolação do animal, está presente a intenção de se fazer através disso, expiação vicária pelos pecados do ofertante.
Como cita BERKHOF (1990, p. 386) em sua Teologia Sistemática:


Entre os que acreditam que o elemento piacular estava presentes mesmo nos sacrifícios pré mosaicos, há diferença de opinião quanto a este tipo de sacrifício. Alguns são de opinião de que Deus os instituiu por uma ordem direta, enquanto outros afirmam que eles foram apresentados em obediência a um impulso natural do homem, aliado à reflexão

No entanto, a Bíblia não registra nenhuma declaração no sentido de que Deus tivesse ordenado ao homem que O servisse com sacrifícios no período em que viveu no Jardim do Éden antes da queda. Ainda se pensássemos em ofertas seria, no mínimo, uma incongruência, uma vez que Adão encontrava-se no estado de plena santidade sem nenhuma necessidade de oferecer ofertas a Deus. Não há também, nenhum registro bíblico em que Deus ordene a prática do sacrifício depois da queda do homem e de sua expulsão do jardim antes do período mosaico.
A única resposta quanto ao começo e determinação dessa prática como
 meio de reparação de culpa repousa na possibilidade de ser através de revelação especial de Deus ao homem, embora sem registro escriturístico.
Como declara Berkhof (1990, p. 386):
“mas a impressão que se tem é que os sacrifícios expiatórios após a queda, só podem ter originado de uma determinação divina”.
  
1.3. A doutrina da necessidade da expiação no período mosaico

O desenvolvimento da doutrina da expiação encontra no período mosaico a sua normatização através da Lei como registra o autor inspirado no livro de Êxodo 30.10 “Uma vez no ano, Arão fará expiação sobre os chifres do altar com o sangue da oferta pelo pecado; uma vez no ano, fará expiação sobre ele, pelas vossas gerações; santíssimo é ao SENHOR”
A doutrina da expiação, mostra que a satisfação é absolutamente necessária. Desde que o homem ficou escravo do pecado não só se tornou objeto de culpa, ira e punição, mas também por quebrar e transgredir a lei perdeu o direito à vida eterna. Ele pôde, através da expiação, ou seja, da devida punição pela culpa, ser isento da punição. De outra forma, não teríamos o direito de receber a vida eterna, uma vez que essa só foi prometida através da perfeita obediência à lei. Portanto, além da devida satisfação da pena, a santidade e um perfeito cumprimento da lei se faz necessário.
A partir de Êxodo e mais especificamente em Levítico, que é uma composição do Pentateuco, está esboçada toda a Lei religiosa, quando a prática do sacrifício com derramamento de sangue, torna-se um preceito divino estabelecido oficialmente, com práticas regulares e em meio a rituais solenes. É em  que Levítico está a normatização da prática sacrificial, que de algum modo já era observada pelos hebreus desde a antigüidade.
Nesse livro vemos a necessidade do sacrifício de animais com derramamento de sangue para expiação da culpa, uma vez que o homem falhou em viver de acordo com as exigências justas de Deus, um meio de expiação tornou-se essencial para que tanto as suas faltas morais quanto as físicas pudessem ser perdoadas. Essas grandes cerimônias foram instituídas para tornar possível a coexistência do Deus Santo com o seu povo pecador.
Comentando sobre a necessidade dos sacrifícios, Erickson (1997, p. 330) diz:


Esses sacrifícios eram necessários não para provocar uma mudança no pecador, ou para impedir os outros de cometer outro pecado, mas expiar o pecado, que merecia intrinsecamente, uma punição. Houve uma ofensa contra a lei de Deus e, portanto, contra Deus em pessoa e isso precisava ser corrigido.

Os sacrifícios em Israel envolviam a oferta de animais domésticos selecionados, cereais, azeite e vinho. Todos esses produtos simbolizavam o adorador israelita, que através dos atos de sacrifício, era readmitido na presença de Deus. Em cada sacrifício animal o adorador colocava a mão sobre a cabeça da vítima identificando-se com ela como que dizendo: “este animal me representa.” Os sacrifícios de animais envolviam a sua morte e, por isso, os sacrifícios se revestiam de um sentido expiatório; o animal que morria no lugar do adorador pecaminoso representava a redenção da morte que esse merecia. Cada sacrifício, porém, tinha as suas características e ênfases religiosas próprias. Isso é indicado pelos diferentes nomes dos sacrifícios, que, às vezes, realçam o aspecto ritual (holocaustos) e, outras vezes, o aspecto teologicamente característico (ofertas pacíficas, ofertas pela culpa).
Sacrifícios pelos pecadosHeb. taJ'x (hattã’t) = errar o alvo. Lv. 4:1 a 5: 13
 Em seu comentário Harrison (1983, p. 51) afirma:


Pecar vem do hebraico taJ'x (hátã), raiz que significa basicamente “errar o alvo”. Ao pecar o transgressor realmente perde o objetivo real da existência que é viver em obediência aos mandamentos de Deus e ser santo conforme Ele é Santo: Lv. 11:4; 19: 2.

“Com as palavras ”Quando alguém pecar” (4:2), Moisés introduz a sua instrução aos leigos acerca das ofertas do pecado. Mesmo que todos os sacrifícios até certo ponto façam expiação pelo pecado, a expiação é a preocupação dominante das ofertas pelo pecado. O pecado e a impureza tornam uma pessoa incapaz de estar na presença de Deus e poluem o santuário, impossibilitando a habitação de Deus ali. A oferta pelo pecado tem por função tratar desse aspecto do pecado, purificando tanto o adorador quanto o santuário. A característica diferenciadora da oferta pelo pecado é o uso do sangue e do sacrifício. Em outros tipos de sacrifício o sangue do animal era aspergido ao lado do altar, mas no caso do sacrifício pelo pecado poderia ser aplicado nos chifres do altar, ou dentro da tenda do tabernáculo ( no altar do incenso ou diante do véu), ou mesmo dentro do Santo dos Santos. Visto que o tabernáculo e seus móveis e utensílios estavam intimamente associados ao povo que vinha encontrar Deus ali, o pecado do povo contaminava o tabernáculo tanto quanto o próprio povo. Essa poluição requeria purificação.

O Dia da Expiação
E esta purificação encontra o seu ápice no Velho Testamento de forma tipológica especificamente através da celebração anual do Dia da Expiação rPEïk;y (Yom Kippur), que caiu no décimo dia do sétimo mês, conhecido como Tishri. Esse foi o mais solene  Dia Santo do calendário religioso do antigo Israel. A Bíblia chama-o !AtïB'v; ((((Shabbat Shabbaton), "o sábado dos sábados" (Lv 16:31). A razão para esta designação especial, aparentemente, encontrada no fato de que o dia comemorado relembrava não só da criação de Deus, mas também a sua nova criação através do provimento da expiação. 
O Dia da Expiação era um dia gracioso em cada ano, quando todos os israelitas poderiam experimentar um novo começo por serem purificados de seus pecados e restaurados a comunhão com seu Criador. "Neste dia a expiação deve ser feita por vós, para purificar-vos; de todos os pecados que devem estar limpos diante do Senhor" (Lv 16:30). Deus fez provisão para o Seu povo para experimentar uma limpeza anual e um novo começo através da Sua expiação Esse foi, realmente, o Evangelho nos tipos que encontram a sua realização no antítipo sacrifício expiatório de Cristo. "Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo" (2 Co 5:17). O cumprimento final da promessa preciosa do Dia da expiação será realizado no retorno de Cristo, quando Ele vai dispor de pecados e fazer novas todas as coisas. 

A Páscoa
Outra prova extraída do Antigo Testamento que não está na descrição da normatização da Lei em Levítico, mas que aponta para um sentido expiatório é a Páscoa, a mais antiga festa judaica, celebrada por ocasião do crepúsculo do décimo quarto dia do primeiro mês (adibe – março - abril) e durava sete dias consecutivos. O evento mais marcante na Páscoa era o sacrifício de um cordeiro sem defeito, efetuado por cada família, cujo sangue deveria ser passado em ambas as ombreira e verga da porta de cada casa dos hebreus Ex. 12:1 –28. O sangue do cordeiro passado nos umbrais das portas implicava na morte de um animal, e isso representava o impedimento dos primogênitos dos hebreus de serem atingidos pelo anjo da morte que feriu todo o Egito v. 22-23, não sendo poupado nenhum primogênito, quer humano, quer animal. A Páscoa mostra como foram libertos todos os que estavam sob a proteção do sangue. Todas essas passagens mostram os diversos tipos de pecados sendo expiado pelo sacrifício, e então sendo perdoados.
Como afirma Horse (2005, p.129-30):


“Como festa anual a páscoa é a instituição que celebra a aflição e fuga de Israel de maneira que acentua sua realidade histórica os israelitas devem observar a páscoa como um dia que assinala um momento particular quando Israel foi liberto do Egito (Ex. 12.7). Devem alimentar-se com comidas que os lembrem da realidade insossa e amarga da sua escravidão (Ex. 12. 8,9,17-20) e faz reviver a ânsia e prontidão de sair do Egito (Ex. 12.11). É bastante significativo o recebimento de instruções para datar todos os acontecimentos futuros a partir desta noite de livramento (Ex. 12.2), o que significa que este acontecimento histórico torna possíveis todos os demais em Israel. Tudo nessa comemoração anual é, então, uma âncora que prende israelitas do futuro a uma historia passada real e, por isso, dá-lhes esperança de que Yahweh agirá a favor deles em suas histórias reais. Como sinal de sua crença nesse Deus da história passada, presente e futura, os israelitas resgatarão seus primogênitos para demonstrar fé no Deus que elegeu Israel como seu primogênito (Ex. 13. 1-16)”

A cerimônia do bode emissário lzEaz"[ ( no original – ‘aza’zél);
Tendo colocado os dois bodes diante do Senhor, Arão, o sumo sacerdote, lançava sorte sobre eles como uma cerimônia preliminar dos rituais purificatórios da comunidade. O lançar sortes provavelmente envolvia o uso das pedras sagradas , o Urim e Tumim para determinar qual bode deveria ser sacrificado ao Senhor e qual deveria ser atribuído para Azazel.
Quanto ao significado da palavra Azazel, lançamos mão da opinião de Harrison (1983, p. 156):


O significado da palavra Azazel está longe de ficar certo. Era porém um termo tão familiar no período do deserto e nos períodos posteriores que não era considerado necessário conservar seu significado com o acréscimo de uma glosa explanatória. A palavra pode talvez significar “remoção” ou “despedida”, mas visto que só ocorre neste capítulo em conexão com as funções rituais específicas, esta explicação é tanto circunstancial quanto inferencial

O Velho Testamento nos ensina a considerar como vicários os sacrifícios que eram apresentados sobre o altar. Quando o israelita apresentava um sacrifício ao Senhor, tinha que pôr a mão sobre a cabeça do sacrifício e confessar o seu pecado. Este ato simbolizava a transferência do pecado para a oferta e a tornava apta para expiar o pecado do ofertante, Lv 1.4. Alguns comentaristas consideram esse ato apenas como um símbolo de dedicação. Mas isto não explica a razão pela qual a imposição das mãos habilitava o sacrifício a fazer expiação pelo pecado. Tampouco está em harmonia com o que aprendemos a respeito do significado da imposição das mãos no caso do bode expiatório em Lv 16.20-22. Após a imposição das mãos, a morte era infligida vicariamente ao animal oferecido em sacrifício. A significação disto é claramente indicada na passagem clássica que se acha em Lv 17.11: “Porque a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas: porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida”.
O animal sacrificial toma, em sua morte, o lugar da morte que cabia ao ofertante. É pena por pena. Os sacrifícios assim apresentados eram prefigurações do grande e único sacrifício de Jesus Cristo

1.4. A doutrina da necessidade da expiação no período Pòs-mosaico.

Ao nos reportarmos a esse período nos referimos à literatura profética e também a literatura histórica Veterotestamentária
Ao ser interpelado o israelita espiritual com respeito às suas esperanças de redenção, ele diria, à luz do mesmo discernimento que o fez perceber a imperfeição dos sacrifícios de animais, que a solução definitiva era aguardada no futuro, e que a perfeita redenção estava em conexão, de alguma maneira, com a ordem perfeita que se inauguraria à vinda do Messias. Em verdade, tal revelação foi concedida a Jeremias. Esse profeta havia desanimado de crer que o povo seria capaz de guardar a lei; seu pecado fora escrito com pena de ferro (Jer. 17:1), seu coração era enganoso e mau em extremo (Jer. 17:9). Não podiam mudar o coração como o etíope não podia mudar a cor de sua pele (Jer. 19:23); tão calejados estavam e tão depravados eram, que os próprios sacrifícios não lhes podiam valer (Jer. 6:20). Na realidade, haviam-se esquecido do propósito primordial desses sacrifícios. Do ponto de vista humano o povo não oferecia nenhuma esperança, mas Deus confortou a Jeremias com a promessa da vinda dum tempo quando, sob uma nova aliança, os corações do povo seriam transformados, quando haveria então uma perfeita remissão dos pecados (Jer. 31:31-34). "Porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados." Em Heb. 10:17, 18 encontramos a inspirada interpretação dessas últimas palavras em que se concretizaria uma redenção perfeita mediante um sacrifício perfeito que dava a entender que os sacrifícios de animais haviam de desaparecer. Por meio desse sacrifício o homem desfruta duma experiência "uma vez para sempre" que lhe dá uma aceitação perfeita perante Deus. O que não se conseguiu pelos sacrifícios da lei obteve-se pelo perfeito sacrifício de Cristo. "E assim o sacerdote aparece cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados; mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus..." (Heb. 10:11, 12)

2 Definição Do Termo E Fundamentação Da Doutrina Da Necessidade Da Expiação No Novo Testamento.

O Novo Testamento toma a posição que os sacrifícios do Antigo Testamento não eram a causa raiz do perdão concedido aos pecados. A redenção precisa ser obtida somente através da morte de Cristo.
A cruz é absolutamente central para o Novo Testamento e, de fato, para a Bíblia inteira, pois, tudo quanto vem antes conduz à cruz e, tudo quanto vem depois olha de volta para ela.
  
2.1 Definição do termo no Novo Testamento

A palavra grega aí traduzida “por” (huper), como a palavra em português, tem um significado duplo; pode significar ou “para o benefício de”, ou pode significar “no lugar de”; o contexto tem de decidir qual dos dois é o sentido tencionado. Nesse caso, esses dois sentidos se aplicam, pois Cristo morreu em nosso lugar, e por Seu sofrimento na cruz, Ele obteve a grande bênção da expiação por nós.

2.2 A doutrina da necessidade da expiação nos evangelhos

 Os elementos encontrados narrados pelos evangelistas do sacrifício de Cristo foram selecionados por cada um deles para apresentar uma concepção particular da cena da crucificação. Os evangelistas não eram apenas historiadores, mas também teólogos, escolhendo as cenas e retratando-as para mostrar a importância dos eventos para a fé cristã.
Mateus e Marcos mostram o horror do fato de o Messias ser morto por seres humanos. A primeira metade da cena de Marcos contrasta a zombaria da multidão com o verdadeiro significado da morte de Jesus com o duplo salva-te!
Como comenta Champlin o evangelho de  Marcos 15. 30(2002, p. 795):


“Tu homem de milagres; homem de poder. Por que não fazes um pequeno milagre agora, para te salvares? Jesus era conhecido como homem poderoso e miraculoso. Agora usavam esse argumento contra ele. Propositalmente olvidaram as maravilhas que ele fizera, pois agora parecia que não podia ser um  homem miraculoso. Se fosse como ele poderia ter chegado aquele estado?  Sempre foi difícil para os cristãos primitivos explicar para os zombadores judeus, ou mesmo para os inquiridores honestos, como é que o grande Jesus, o Messias poderia ter tido tão mau fim. Certamente não esperavam um Messias dessa categoria. É que lhes escapava completamente ao entendimento a verdade que o Messias seria o servo sofredor, embora isso seja tão claro em várias passagens do Antigo testamento”.

O evangelho de Mateus amplia as imagens de Marcos em algumas direções importantes, acrescentando que Jesus recusou a bebida anestésica ao “prová-la” Mt. 27.34 e incluindo na cena da morte a expressão: “entregou o espírito” Mt. 27.50. Assim Mateus acentua que Jesus encarou a morte voluntariamente.  Mateus substituiu “entregou o espírito” pelas palavras de Marcos “expirou”, talvez com o desejo de indicar que se tratou de “um ato voluntário de Jesus...” Champlin (2002, p. 637).
Mateus usa de ironia ao mostrar o contraste entre o sacrifício de Cristo e sua vindicação. Esta inclui o rasgar o véu do templo 27. 50, e o testemunho do centurião 27.54. Na impressionante cena sobrenatural 27.52s, a morte de Jesus é imediatamente seguida por um terremoto que abriu sepulcros e reviveu “muitos corpos de santos” que haviam morrido. Para Mateus, esses eventos e outros inauguraram os últimos dias, o novo tempo da salvação em que o poder da morte é rompido e a vida se torna disponível a todos os povos, línguas, tribos e nações, isto é, a expansão do reino de Deus. 
Mas jamais devemos nos esquecer de que Ele realizou essa expiação, não enquanto estava debaixo de algum tipo de pressão, mas enquanto estava agindo por livre e espontânea vontade; caso contrário a expiação não teria valor algum para o homem, e teria realmente sido uma injustiça para Cristo. Foi por esse motivo que Cristo se colocou debaixo da lei e a guardou com perfeição indo voluntariamente à cruz. Para que Cristo tivesse responsabilidade diante da lei, em prol da realização de Sua obra expiatória, era necessário que Ele por livre e espontânea vontade se colocasse debaixo de sua autoridade, de um modo tal que as exigências da lei (sem nenhuma idéia arbitrária, mas espontaneamente e por direito) viessem até Ele; de modo que a justiça não só tivesse direito de cobrar dEle, mas também tivesse de aceitar compensação trazida diretamente por Ele. Que Cristo, quando mediador na Sua humanidade, não estava preso à lei, por alguma necessidade natural, dá para se provar de modo abundante à necessidade absoluta de espontaneidade em Seus sofrimentos.  
Com Sua vida e morte extraordinária, Cristo realizou o que a mente do homem não poderia imaginar, muito menos realizar: expiação é um empreendimento divino do começo ao fim.
Já em Lucas, todo o contexto tem uma atmosfera de reverência e adoração. São omitidos o vinho e a mirra, o brado de abandono e a zombaria acerca de Elias. Em vez disso são narrados outros episódios
Cristo não veio aqui para ver se havia alguém que O seguisse. É claro que não. A passagem em Romanos 3:11 declara de maneira enfática “não há quem busque a Deus.” Cristo é Aquele que busca. E isto é por Ele ensinado de forma maravilhosa, na parábola da ovelha perdida. Um cão extraviado ou um cavalo perdido geralmente encontrarão seu caminho de volta à casa. Não tanto assim uma ovelha quão mais livre, mais para longe se afasta do rebanho. Por conseguinte, se aquela ovelha deva ser recuperada, alguém precisa ir procurá-la. Isto é o que Cristo fez, e o que através do Seu Espírito Santo Ele continua a fazer. Como declarado em Lucas 15:4, Ele vai “em busca da que se perdeu, até encontrá-la .” Porém mais: Cristo veio a terra não somente para procurar e encontrar, mas também para salvar . Suas palavras são: “Pois o Filho do homem veio para buscar e salvar aquele que estava perdido” Lucas 19:10. Note que não é meramente que Ele Se ofereça para, ou que Ele ajude para, mas que Ele realmente salva. Foi enfática e absoluta declaração do anjo a José, “Lhe porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo dos pecados deles” Mateus 1:21 — ele não veio tentar nem fazê-lo parcialmente, mas realmente salvá-los .
Cristo, aqui, veio com um objetivo definitivamente definido, em vista, e sendo quem Ele é, não há espaço possível para qualquer falha em Sua missão. Daí que, antes que Ele viesse, Deus declarou que Ele “verá o fruto do penoso trabalho de Sua alma e ficará satisfeito ” Isaías 53:10. Como o Mediador, Ele fez aliança solene com o Pai para salvar o Seu povo dos seus pecados. Ele realmente comprou-os com o Seu sangue Atos 20:28. Ele operou por eles uma salvação perfeita, portanto Ele é “poderoso para salvar” Isaías 63:1. Esse fato é abençoadamente ilustrado no contexto que precede a Lucas 19:10. Ele disse a Zaqueu, “desce depressa; porque me convém ficar hoje em tua casa . . .Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão” vv. 5, 9. Sim, “um filho de Abraão”, alguém da semente eleita. Portanto, corajosamente diríamos aos leitores que, se você pertence ao rebanho de Cristo, você deve ser salvo, mesmo que neste momento você esteja bem inconsciente da sua condição de perdido. Embora, tal como Saulo de Tarso, você possa todavia “assolar a igreja”, a graça irresistível o conquistará , pois está escrito, “Apresentar-se-á voluntariamente o Teu povo.” Salmo 110:3
No evangelho de João percebe-se uma mudança de ênfase na perspectiva teológica, ele prefere eclipsar as cenas mais chocantes como as trevas e os insultos. A serenidade permeia toda a narrativa, fazendo um contorno no controle soberano de Jesus sobre toda a situação, visto que a crucificação é tida como o processo de coroação.


Como registra Hendriksen (2004, p. 854):


 “Foi escrito em aramaico, que era a língua falada pelos judeus da palestina, em latim, a língua oficial do governo, e em grego, a língua do comércio e da cultura. O rei dos judeus foi crucificado a pedido dos judeus; que todo mundo fique sabendo disso. Rejeitando-o, eles rejeitaram a si próprios. E que a rejeição dos últimos significa a ‘reconciliação do mundo’ (eleitos de Deus de toda tribo e nação). Portanto, o mundo inteiro deveria ler esse título! Aqui está o Salvador que tem significado internacional”

Somente João declara que a inscrição colocada sobre a cruz foi escrita em hebraico, latim e grego, o que aponta para a proclamação mundial da entronização de Cristo.

2.3 A doutrina da necessidade da expiação nas epístolas Paulinas.

A doutrina da expiação está no centro do ensinamento de Paulo. Em seus escritos ele emprega vários termos para expor a doutrina da expiação, em diversas passagens bíblicas para explicar o seu significado. Entre as várias nos deteremos apenas em algumas.
Em Rm. 3.25, lemos que ele foi oferecido como “propiciação, mediante a fé”. A palavra aqui usada é i`lasth,rion, a forma neutra do adjetivo i`lasth,rioj, (propiciatório, expiatório) usada como substantivo, significando um “sacrifício expiatório”. O propósito de apresentar Cristo como i`lasth,rion era precisamente aquilo que um sacrifício expiatório estava destinado a fazer, isto é, a satisfação da justiça, para que Deus pudesse ser justo ao perdoar o pecado. E a justiça de Deus manifestada no sacrifício de Cristo não foi a sua benevolência, mas aquela forma de justiça que exige o castigo do pecado

Como declara Schaeffer (2003, p. 83):


Eis porque o versículo 3.26 é assim tão crucial. Porque Jesus assumiu a nossa culpa na cruz, é possível Deus continuar “justo”. A base moral que sustentava todo o universo ainda continuava de pé. Por outro lado, ele pode agora ser o “justificador” de todos aqueles que acreditam nele e aceitaram o pagamento de Cristo pelos seus pecados.

De maneira semelhante em Rm. 8.3 Paulo diz: Deus enviou seu Filho como oferta pelo pecado peri. a`marti,aj que em grego significa uma oferta pelo pecado, e assim condenou o pecado na carne, ou seja, na pessoa de Cristo. E é assim que somos justificados, ou que a justiça da lei se cumpre em nós.
E assim assegura Ridderbos (2004, p. 189):


Certamente, nessa passagem a idéia legal é bastante pronunciada. Deus não apenas trata Cristo, que é sem pecado, como se fosse pecador, mas também o faz (ao entregá-lo à morte de cruz) pecado no sentido legal da palavra. É nesse sentido que aqueles que estão em Cristo pela fé tornam-se justos, que são, de fato, feitos “justiça de Deus”, isto é, podem identificar-se com aquilo que é absolvido no julgamento de Deus.

Em mais dois dos seus escritos sendo um na epístola aos Efésios e o outro na epístola aos Gálatas ele vem trazendo outro termo para explicar o seu entendimento da doutrina expiação. Sendo que agora ele fala da entrega de Cristo como oferta pelo pecado. Em Gl. 1.4 diz que Cristo: “se entregou a si mesmo pelos nossos pecados”, e em Ef. 5.2 lemos que Cristo “se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrificio a Deus, em aroma suave”. Ou seja ele se entregou à morte como sacrificio por nossos pecados, para que Deus efetuasse nossa redenção. Sua oferta foi um sacrificio. Seu sangue foi derramado como expiação. A questão é que Cristo aqui é descrito como oferta pelo pecado, contrastando o sacrifcio da lei com o sacrificio de Cristo.  Se os primeiros consistiam no sangue de animais irracionais, que não eram nada mais que o princípio de vida animal, seriam para levar a bom termo a purificação externa ou cerimonial, quanto mais o sangue de Cristo, que possuia o Espírito eterno, ou a natureza divina, e se ofereceu sem mácula a Deus, levando a bom terma a verdadeira expiação pelo pecado.
Em aquiescência  com essa afirmação declara Ridderbos (2004, p. 213):

Em completa concordância com essa realidade encontra-se a idéia do caráter substitutivo da morte de Cristo na cruz, na medida em que referências a ela aparecem repetidamente nas epístolas de Paulo, quando se diz que Cristo “morreu por nossos pecados” (I Co 15.3; II Co 5.14); ou “morreu por nós” e “foi entregue por nossas transgressões (Rm. 5.6,8; 14.15; I Ts 5.10; Rm. 4.25; 8.32; Gl 1.4; 2.20). Por certo, a expressão “por nós”, ainda não quer dizer, em si, “nosso lugar” ela indica que a morte de Cristo ocorreu em “nosso favor”. Ainda assim, não há dúvida quanto ao seu significado substitutivo dessas expressões.
A grande verdade doutrinária que "Cristo morreu em meu lugar" junto ao pecador arrependido de seu Salvador deve ser espiritual e emocional. Quando a alma perdida através da cruz "vê" o evangelho e Cristo em seu lugar por seus pecados, ele é dominado pela emoção e gratidão espiritual. Cristo crucificado é o pão que desceu do céu para dar vida ao mundo e que sustenta o cristão ao longo de sua peregrinação terrena, servindo ao Senhor e o levando a compartilhar o evangelho com os outros. 
A finalidade do ato divino de substituição era "para que nele nos tornássemos justiça de Deus" (II Cor. 5:21). "Justiça" ou "justificação" é o oposto de "condenação" no ensino de Paulo (cf. 2 Cor. 3:9). Nós só podemos "nos tornar a justiça de Deus" se Deus não levar em conta as nossas ofensas contra nós (cf. Rom. 4:6-8). A lógica de II Coríntios 5 é que Deus condena o nosso pecado na morte de Seu Filho sem pecado para que fôssemos justificados e reconciliados com Ele (cf. Rom. 8:1-4, 10). Esta "grande troca" é uma realidade para todos os que estão "nele", isto é, unidos a Cristo pela fé. Pois, para Paulo, a cruz de Cristo foi fundamental para a reflexão da vida cristã, especialmente como o meio pelo qual Deus providenciou a para salvação como instrumento de esperança de uma nova vida em Cristo. 


Quanto às epistolas gerais nos deteremos apenas na epístola aos Hebreus, e nas epístolas do apóstolo Pedro.

Essa perspectiva do Antigo Testamento da epístola aos Hebreus ajuda-nos a compreender a relação do conceito da expiação na ótica neotestamentárias. Hebreus cita textos que fazem referência ao sangue que só podem ser compreendidos a partir de uma compreensão da necessidade do derramamento do sangue nos sacrifícios Veterotestamentário: Hb. 9:22 “sem derramamento de sangue não há remissão de pecados.” E Hb. 10:4 “ é impossível que sangue de touros e de bodes removam pecados.” Não haver perdão sem sangue significa não haver expiação sem substituição. Tinha de haver vida por vida ou sangue por sangue e é neste ponto que os sacrifícios da Antiga Aliança lançam luz na compreensão da Nova Aliança para a compreensão da doutrina da expiação.
Sobre este ponto, Sttot (1991, P.205) destaca:


Os sacrifícios de sangue do Antigo Testamento não passavam de sombras, a substância era Cristo. Para que o substituto seja eficaz, o equivalente deve ser adequado. O sacrifício de animais não podia expiar seres humanos porque “mais vale um homem do que uma ovelha” (Mt. 12:12). Somente o “precioso sangue de Cristo” (I Pe. 1:19) tinha valor suficiente.
Os sacerdotes judaicos continuamente ofereciam sacrifícios diários. Eles ainda estavam vivos, dando continuidade aos seus afazeres, quando a carta foi escrita. Como temos visto no capítulo 6, a tarefa deles era incompleta. Seus sacrifícios eram animais, incapazes de expiar pecados da humanidade. Alem do mais, o sacerdote poderia entrar no Santo dos Santos apenas uma vez por ano, e somente com o sangue dos animais sacrificados. Esse é o contexto no qual o escritor aos Hebreus considera a morte de Cristo. 
Em Hebreus 10.10, lemos que “temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas”. A palavra h`giasme,noi, aqui traduzida por santificar, significa purificar. O pecado é na Escritura sempre considerado como impureza, tanto em seu aspecto de culpa quanto de torpeza moral. Como culpa, é purificado por meio de sangue, por meio de expiação sacrificial, como impureza, pela renovação efetuada pelo Espírito Santo. Que tipo de purificação se pretende é determinada em cada caso pelo contexto. Se a purificação é efetuada por meio de sacrifício, pelo sangue ou pela morte de Cristo, então a remoção da culpa está em pauta. Daí, todas as passagens em que lemos sermos salvos, ou reconciliados com Deus, ou purificados, ou santificados pelo sangue ou morte de Cristo, devem ser consideradas como tantas asseverações de que ele foi um sacrifício expiatório pelo pecado. Nessa passagem, a intenção do escritor não pode ser diferente. Ele está contrastando os sacrifícios do Velho Testamento com o de Cristo. Aqueles eram ineficazes, esse foi de eficácia soberana. “Sacrifício e oferta não quiseste; antes, um corpo me formaste. Eis que vim fazer a tua vontade.” Por essa vontade, ou seja, pela execução desse propósito de enviar seu filho encarnado, somos purificados pela oferta de seu corpo. Os antigos sacrifícios diz ele v. 11, tinham de ser constantemente repetidos. Mas  este homem “Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus,”. Porque por uma só oferta ele aperfeiçoou para sempre (tetelei,wken, conduziu  a um fim colimado por meio de um sacrifício) os que são santificados, ou seja, purificados da culpa.
Como nos mostra Laubach (2000, p. 84,85):


Mais uma vez o apóstolo se reporta aos dolorosos limites e as imperfeição do serviço sacerdotal do AT, a fim de reluzir, diante deste pano de fundo, com tanto maior brilho, maravilhosa grandeza do sacrifico único de Jesus Cristo...  a cada manhã e a cada entardecer, dia após dia, ano após ano, os sacerdotes tinham de sacrificar um cordeiro sem defeito – até que viesse a morrer o “Cordeiro de Deus” como sacrifício de validade plena, para romper o cerco férreo do pecado e trazer a todos os eleitos a redenção perfeita.

Essa purificação sacrificial aqui projetada é clara, porque o efeito dela é o perdão. “Seus pecados e iniqüidades não serão mais lembrados. Ora, onde há remissão deles, não há mais oferta pela culpa. E no versículo 26 descobrimos que, para aqueles que rejeitam o sacrifício de Cristo já não resta sacrifício pelos pecados, pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador.  O perdão, pois, fundamenta-se na expiação do pecado, a qual foi assegurada no sacrifício de Cristo. E esse é declaradamente o único meio de nossa culpa ser removida, ou a justiça de Deus satisfeita. Devemos ter sempre em mente que o fim da expiação é a reconciliação com Deus, e que a reconciliação com Deus envolve ou assegura a conformidade com a sua imagem e íntima comunhão com Ele. O propósito último da obra de Cristo é, portanto, “conduzir-nos a Deus”; “purificar para Si um povo zeloso e de boas obras”.

2.4.2 A Doutrina Da Necessidade Da Expiação Nas Epístolas Petrinas 
A linguagem usada pelo apóstolo Pedro em seus escritos para expor a doutrina da expiação é apreendida a partir de 2.24 “carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados”. E a palavra grega avnafe,rw, aqui significa levar ou suportar, ou ajustar, o sentido é o mesmo das demais epístolas. Só se altera a figura. Cristo levou a culpa de nossos pecados. Essa é a carga que ele suportou, ou que ele levou consigo quando subiu à cruz. Na passagem paralela, em Isaias 53.11, evidentemente na mente do apóstolo, as palavras da septuaginta são ta.j a`marti,aj auvtw/n auvto.j avnoi,sei, onde em hebraico se emprega lBo)s.yI, o que aparece decisivo para da doutrina da expiação. “ele levou os nossos pecados”, visto que lbs, sempre significa levar como carga. Quanto ao significado doutrinário dessa passagem praticamente todos os comentaristas concordam.
Da mesma forma aquiesce Mueller (1998, p. 169):


Depois de dizer o que Jesus não fez, ou deixou de fazer, o autor passa agora a falar positivamente do que Ele fez diante da injustiça. Jesus não só se guardou do mal, mas “contra-atacou” com o inesperado, com o bem (cf. Rm. 12.21). em vez de ceder ao pecado, ele o carregou como um fardo para dele se desfazer. O autor está citando Is. 53. 4,12, (lembrando o sacrifício vicário do Servo do Senhor). O verbo anaferein (carregar) era também um termo técnico dos rituais de sacrifício do A.T, relacionado com a expiação do pecado.

Tudo isso era típico de Cristo e da sua obra. Ele veio para salvar o seu povo dos pecados deles, para restaurá-los dos pecados ao favor divino e para assegurar-lhes o desfruto das bênçãos do “novo e maior pacto” do qual Ele é o mediador.  
  
2.5 A doutrina da necessidade da expiação em apocalipse

A linguagem da redenção, expressa nestes textos, é a linguagem da compra, e mais especificamente, do resgate. Outro verbo que também aparece e é usado na voz passiva, mas que denota a idéia de compra é hgorasqete = fostes comprados:
Ap. 5:9 : “e entoavam um novo cântico dizendo: Digno és de tomar o livro e abrir-lhes os selos, porque foste morto e com teu sangue compraste (hgorasa ) para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação.”
Ap. 14:3-4 – “Entoavam novo cântico diante do trono, diante dos quatro seres viventes, e dos anciãos. E ninguém pode aprender o cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados (hgorasmenoi) da terra. São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos (hgorasqhsan) dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro.”
Nessas passagens, a linguagem de redenção é a de assegurar libertação através do pagamento de um preço. E esse é o conceito aplicado expressamente ao doar da vida de Jesus pelo derramamento de seu sangue a fim de pagar o preço de nosso resgate. E com isso apontando para o que nos está prometido na glorificação que é a entrada na Jerusalém celestial por meio da obra consumada de Cristo, isto é, na glorificação. Em 22.14 João escreve “Bem-aventurado aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas”. Lavar as vestes significa recorrer às fontes purificadoras do sangue de Jesus Cristo. Ele não só pode remover nossa culpa, mas, também, conceder-nos a purificação. Também nos dá o direito de entrar na cidade aquele que foi purificado através do lavar regenerador, isto é, aquele que deixou a contaminação, e agora passa a ser dedicado exclusivamente ao Senhor. E, por fim, o direito de se aproximar-se da árvore da vida podendo entrar na cidade pelas portas.
A doutrina da expiação,é por demais negligenciada. Dos púlpitos ouvimos muitos sermões sobre vários assuntos, porém sobre Cristo, o dever de correr para ele, de recebê-lo, de confiar nele, de renunciar à nossa própria justiça, para que possamos revestir-nos da justiça de Deus e em como nossa união com ele, o fato de ele viver em nós, e o nosso dever de viver pela fé nele, temos que enfatizar em maior proporção para uma vida de verdadeira esperança de vida eterna.
Portanto, a doutrina da expiação é exposta claramente nas Escrituras, que Jesus Cristo, nosso Senhor, salva seu povo agindo por eles como oferta e ofertante de forma perfeita de uma vez por toda. Ele pois, seja o louvar, e toda à glória pelos séculos dos séculos. 

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