quarta-feira, 27 de junho de 2012

Preguiça


PREGUIÇA
Pv. 6. 6-11
Ser preguiçoso é pecado?
Esta série de estudos tem abordado situações bem comuns do dia-a-dia de cada um de nós. Não temos dúvidas que os outros doze temas estudados sejam pecado, mas, preguiça... Será que aquela moleza própria de segunda-feira, ou curtir a cama num domingo de chuva, sem obrigação de trabalho, ou igreja é pecado?
O bicho preguiça na natureza é muito interessante. A preguiça não caça animais, mas se alimenta apenas de folhas. Ela é seletiva. Não come qualquer folha. Sua única defesa consiste em camuflar-se entre as folhas nas copas das árvores. A postura natural da preguiça é invertida em relação aos outros animais. Ela precisa viver nos galhos, e não no chão. Fica pendurada e as mãos funcionam como ganchos. Por isso, sem florestas não há preguiças. Se não tiver um galho para se pendurar entram em estresse.
A lentidão dos movimentos, o longo período de inatividade e a forma de se locomoverem e a postura são algumas de suas características. Elas não bebem água, pois a água que elas precisam para viver é absorvida do próprio alimento, através das paredes intestinais durante o processo de digestão. É um animal dócil e indiferente ao que acontece ao seu redor. Porém, observa tudo como se contemplasse a natureza. Conhece o perigo, mas não reage. Quando assustada, apega-se às pessoas ou às suas companheiras. As preguiças costumam dormir cerca de 14 horas por dia. Conforme a temperatura, podem ir até 16 horas.
Breve análise do texto
Em Eclesiastes 10.18, o sábio declara: “Pela muita preguiça se enfraquece o teto, e pela frouxidão das mãos goteja a casa”. No entanto, é em Provérbios que encontramos vários textos sobre o assunto. O mais conhecido de todos é Pv. 6.6: “Vai ter com a formiga ó preguiçoso, olha para os seus caminhos e sê sábio”. Havia, na Palestina, um tipo de formiga chamada ceifadora, e Salomão faz a comparação bem a propósito. A formiga tem líder, tem ordem, tem horário, tem rota, tem tarefa definida, enquanto o bicho preguiça não tem nada disso. Aprender com a formiga foi a intimação do autor bíblico. Observe mais alguns versículos sobre o assunto:
Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono? Pv. 6.9
O preguiçoso não assará a sua caça, mas o bem precioso do homem é ser ele diligente. Pv. 12.27
O preguiçoso deseja e nada tem, mas a alma dos diligentes se farta.Pv. 13.4
A preguiça faz cair em profundo sono, e o ocioso vem a padecer fome. Pv. 19.15
O preguiçoso morre desejando, porque as suas mãos recusam trabalhar. Pv. 21.25
O dicionário da língua portuguesa identifica preguiça/preguiçoso como aversão ao trabalho, indolência, morosidade, moleza, etc. O preguiçoso, segundo Provérbios, é aquele que fica deitado e dormindo; tem a caça, mas não se preocupa com o preparo; tem planos de vida, mas não concretiza nada que começa; daí, acaba prejudicando tanto a si, como aos outros.
1. Características do preguiçoso.
Quando se observa as características do bicho preguiça e as colocações do texto bíblico, percebe-se grande semelhança. Vamos listar algumas delas:
Ø A preguiça alimenta-se de folhas, pois fica mais fácil para ela. Ela se acomoda a árvore ou ao galho, e ali mesmo se alimenta. O preguiçoso se comporta da mesma forma: encosta-se nas pessoas e se aproveita do outro. Ele é interesseiro e só se envolve com o que lhe traz vantagens pessoais e, às vezes, nem isso. Paulo combate tal postura (II Ts. 3. 7,8).
Ø A preguiça fica dependurada nos galhos. O preguiçoso se apega às pessoas, não por afetividade ou porque tem um grande coração e quer o bem-estar do outro, mas porque não consegue fazer as coisas e, por isso, depende de que alguém faça por ele. A pessoa que é o ‘galho’ onde o preguiçoso fica dependurado acaba se irritando e, muitas vezes, surgem crises ou conflitos no relacionamento.
Ø A preguiça não bebe água e aproveita a que ingere alimento. A água é vida e o preguiçoso não sente necessidade de buscar vida no trabalho, nos relacionamentos, na própria vida. Contenta-se com o que consegue as custas dos outros, e não possui aspirações própria. Se as têm não movem um dedo para conquistá-las. Geralmente é uma pessoa pobre internamente. Não tem nada para repartir com o outro (Pv. 21. 25).
Ø A preguiça, diante do perigo, não reage. A apatia e a indiferença do preguiçoso são tão grandes que, ao perceber o perigo, as crises os conflitos, ele fica imóvel, achando que isso vai passar – o que nem sempre acontece. Diante de situações que são necessárias atitudes claras e decisões firmes, o preguiçoso fica impassível, aguardando que alguém faça por ele. Na realidade, continua dependurado em alguém, esperando que esse alguém tome as decisões por ele. (Ec. 10.18).
Na realidade, o preguiçoso não começa nada, pois acha que não vale a pena (Pv. 20.4). não acaba nada, sempre deixa seu trabalho pela metade. Isso nos faz lembrar o texto de Pv. 22.13 Diz o preguiçoso: Um leão está lá fora; serei morto no meio das ruas”.

2. Desculpas do preguiçoso.
Em geral, o preguiçoso é alguém que usa, com facilidade, a comunicação verbal, e convence o outro com poucas palavras. A sua maneira de ver e viver a vida é diferente e ele se justifica. Senão, vejamos:
Ø Quando chamamos preguiçoso de tratante, isto é, combina uma coisa e acaba não fazendo, ele alega que é realista. Acaba deixando a outra pessoa com o sentimento de culpa de que, se as coisas não deram certo, é porque não considerou pontos fundamentais.
Ø Se o preguiçoso é julgado por ser tolerante consigo mesmo diante de um compromisso marcado, ao qual ele não compareceu, simplesmente diz que não estava se sentindo bem naquele dia. Dá uma desculpa que não pode ser comprovada, e acaba ficando por isso mesmo.
Ø Acusar um preguiçoso de inércia é tempo perdido. Ele vai alegar que não suporta ser cobrado, que as pessoas não o compreendem, que não gosta de ser empurrado pelos outros etc. no final, os outros estão errados, e ele certo (Pv. 10.26).
Ø Muitas vezes se diz ao preguiçoso que ele é devagar mentalmente e que demora para decidir. Ele, então, responde justificando que não é isso, mas que ele é leal aos seus princípios, precisa pensar bastante, não toma decisões precipitadas... etc.
Ø Essas e outras justificativas são comuns, mas o preguiçoso jamais admite que são desculpas (Pv. 26.16).
Ø  
3. Algumas justificativas válidas.
É preciso considerar que, em algumas circunstâncias, a pessoa acaba ficando preguiçosa, não por uma questão de caráter, mas por algum problema pessoal. Senão, vejamos:
Ø Uma pessoa com anemia, a pressão sanguínea desce e ela acaba tendo pouca vitalidade e vontade de fazer as coisas. Daí a chamamos de preguiçosa, quando, na realidade, é uma questão de saúde. Tratando-se devidamente, a pessoa volta à ativa.
Ø Às, vezes, os pais criam casos com filhos que se desinteressam pelos estudos ainda pequenos, e os chamam de preguiçosos, quando a criança não está conseguindo acompanhar as aulas, por ter um problema de visão. Enxergam pouco, ou quase nada, e isso as desmotiva. É preciso cuidado para não etiquetar a criança sem saber as causas.
Ø Uma disfunção hormonal ou glandular pode provocar desmotivação para viver, e levar a uma depressão, que tem como resultado uma apatia ou (preguiça) para fazer qualquer coisa. Um tratamento médico pode resolver.
Ø Há pessoas que perderam a motivação de viver por vários fatores, quer emocionais, físicos ou espirituais. Acabam perdendo o interesse e, muitas vezes, tão taxadas de preguiçosas indevidamente. Precisam é de ajuda.
O importante é saber diferenciar entre as justificativas válidas e as desculpas. As desculpas são questão de caráter moral, e isso deve ser modificado, através da apropriação do caráter de Cristo (Ef. 4. 28; 5.1).
A preguiça é pecado quando se torna parte integrante do nosso caráter. E o cristão deve ter o caráter de Cristo, e nele não há lugar para a preguiça (Jo 5.17). o verdadeiro cristão busca a santidade e, para isso, precisa estar sempre lendo e vivendo a Palavra e em comunhão com o Senhor na oração. Uma pessoa preguiçosa vai ter dificuldades para achar tempo para ler a Bíblia e orar. Sempre vai encontrar desculpas que, segundo ela, são justificadas. E, aí, a corrida de obstáculos fica impossível de ser vencida (I Co 9. 24,25).
1. Você é uma pessoa preguiçosa? Para você, o trabalho é benção ou castigo?
2. O que você faz quando descobre que a preguiça não é uma mania do outro, mas um problema de saúde? Tem tido alguma experiência nessa área?

Glutonaria


GLUTONARIA
Fp. 3. 17-21
Há aqueles que comem muito devido a uma disfunção do organismo. Alguns fazem cirurgia para reduzir o tamanho do estômago. Outros recorrem a medicamentos e se submetem a tratamentos rigorosos, com o objetivo de diminuir o apetite e manter o corpo numa boa forma.
Pergunta-se:
Pessoas assim estão praticando o pecado da glutonaria? Por quê? Como identificar um glutão?
A moderação se aplica a tudo na vida. Evitar exageros, não ultrapassar a linha limítrofe, etc., são atitudes que revelam equilíbrio e bom senso, trazendo resultados benéficos para a caminhada neste mundo. Sendo assim isto se aplica à questão alimentar. Comer bem não significa comer exageradamente. É perfeitamente possível comer bem, aplicando-se a moderação.
Na Roma antiga, os romanos eram glutões inveterados. Ficaram famosos na história, entre outros motivos, pelos requintados e infindos banquetes, nos quais comiam até não mais aguentar a comida. Depois, iam à janela mais próxima, colocavam para fora tudo que havia sido ingerido e voltavam para a mesa. Para quê? Para comer de novo.
Esse fato acima constitui-se num exemplo do que seja glutonaria. É como diz o ditado popular: “Não comem para viver, vivem para comer”. O glutão é aquele que coloca o prazer de comer acima de qualquer outra coisa. Para o glutão, a vida só tem sentido nos banquetes e festas gastronômicas. O pecado da gula é, portanto, comer sem necessidade, sem sentir fome; comer além do limite, compulsivamente.
O texto que fundamenta o presente estudo apresenta a argumentação de Paulo quanto aos padrões de conduta e valores daqueles que se opunham ao seu ministério e pregação.
A orientação paulina é para que os crentes de Filípos não sigam aos maus exemplos de falsos líderes existentes naquela igreja (v.18). esses falsos líderes, evidenciando uma superioridade espiritual, ensinavam que o corpo é irrelevante, pois já estavam num plano espiritual mais elevado. Assim, para eles não havia limites nem restrições. A única satisfação deles era para com os desejos carnais. O seu Deus é o estômago. São glutões.
1. IDOLATRIA DO VENTRE
O apóstolo Paulo afirma, com clareza, que aqueles que são “inimigos da cruz de Cristo” têm o ventre como seu deus (v.19). conclui-se que a prática da glutonaria constitui-se em idolatria, pois a comida torna-se um deus, isto é, a coisa mais importante para a pessoa. O maior prazer do glutão é estar presente em banquetes, esquecendo-se de que “não só de pão vive o homem”. (Dt. 8.3).
No Antigo Testamento, a glutonaria era algo tão sério, associada à rebeldia, que o glutão pagava com a própria vida por esse pecado (Dt 21 18-21).
Com certeza, nenhum servo ou serva de Deus está impedido de participar de festas, churrascos com amigos etc. o importante é não priorizar essas coisas em detrimento do Reino de Deus. Não se pode fazer disso a coisa maus importante da vida, permitindo que o ventre passe a dirigir as nossas motivações.
2. DESPERDÍCIO
O glutão não conhece limites, nem sabe o que é desperdício. Comendo além do necessário, a pessoa está desperdiçando comida, enquanto milhares à sua volta estão morrendo de fome. Com certeza, o rico da parábola contada por Jesus era um glutão. Enquanto se banqueteava, lázaro comia o que era jogado no lixo. (Lc. 16. 19-31).
Na igreja de Corito havia alguns glutões. Em 1 Co 11.21, oferecendo instruções quanto à participação da Ceia, e orientando quanto à refeição comunitária na vida da igreja, Paulo escreve: “Porque ao comerdes, cada um toma, antecipadamente a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague”. Era prática comum na igreja a realização do ágape, isto é, uma refeição comunitária, após a qual celebrava-se a Ceia do Senhor. No entanto, na igreja de Corinto, esta festa estava sendo descaracterizada, pois os mais abastados antecipavam a sua ceia, enquanto outros que não tinham o que comer passavam fome.
Os cristãos precisam conscientizar-se de que a solidariedade é uma virtude cristã. O egoísmo não é uma virtude daquele que caminha com Jesus. Aliás, o desafio é para que alimentemos inclusive “os nossos inimigos”. (Rm. 12.20).
3. MALES FÍSICOS
Comer demais é má mordomia. É fazer uso errado de um bem que Deus proporcionou a todos. É obrigar o organismo trabalhar mais do que precisaria normalmente. A alimentação descontrolada traz sérios prejuízos para a vida física. Todos sabem os males que o cigarro traz para o organismo, no entanto, não há preocupação para em saber quais os males que uma má alimentação pode trazer para o corpo.
Na culinária do povo de Deus, no Antigo Testamento, havia uma preocupação com uma alimentação saudável e equilibrada. Observa-se que havia a recomendação para não se ingerir gordura. (Lv. 3.17). Daniel e seus companheiros recusaram a comida da Babilônia e preferiram uma dieta mais saudável (Dn. 1. 8-21).
O cristão sabe que o Reino de Deus não é “comida nem bebida” (Rm 14.17); sabe que não é o que entra pela boca o que contamina o homem espiritualmente (Mt 15.11); sabe que não precisa ser vegetariano, mas deve preocupar-se com sua saúde, pois o seu corpo é templo do Espírito Santo, e como tal necessita ser bem tratado, bem cuidado.
Há casos em que se torna necessário procurar uma orientação médica, devido a um desequilíbrio do organismo, a fim de se aplicar uma reeducação alimentar. Há, também, aqueles que se habituaram a uma má alimentação e que precisam modificar seus hábitos alimentares, mesmo sem precisar buscar uma orientação médica. O importante em se tratando de excessos na alimentação e maus hábitos alimentares, é reeducar-se nessa área.
Reflexão Pessoal
1. Você se sente uma pessoa segura ante o pecado da glutonaria?
2. De que maneira você se comporta nas festas das quais participa?
3. Como você pode ajudar alguém que enfrenta o problema da glutonaria?
O autor é Sérgio Pereira Tavares pastor da Igreja Presbiteriana, e diretor da Revista Didaquê. 

terça-feira, 26 de junho de 2012


O Caráter da Adoração
Dr. Robert Godfrey
Em terceiro, a adoração pode se referir ao tempo quando os cristãos se reúnem oficialmente, como uma congregação, para louvar a Deus. Esta forma de adoração é recomendada e ordenada nas Escrituras. “Não deixemos de reunir-nos, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele Dia” (Hebreus 10:25). O Salmista celebra este privilégio da adoração corporativa:
Louvai ao SENHOR.
Louvarei ao SENHOR de todo o meu coração,
na assembléia dos justos
e na congregação. (Salmos 111:1)
Claramente Deus quer que Seu povo se reúna como congregação, expressando que este povo é o corpo de Cristo, adorando-O conjuntamente.
Este terceiro uso da adoração, a adoração corporativa, merece atenção especial por duas razões. Primeiro, a arena da adoração corporativa é onde a maior parte da guerra da adoração está sendo travada. Mudanças na adoração corporativa precisam de exame cuidadoso em nosso tempo.
Segundo, muitos cristãos parecem ter uma medida de preconceito contra a adoração corporativa como uma prioridade na vida dos crentes. Eles parecem crer que a adoração oficial da igreja não é muito importante. Eles acham-na muito formal e impessoal. Eles sentem que os momentos individuais de oração e leitura da Bíblia, ou as experiências de pequenos grupos, são muito mais importantes no cultivo de uma proximidade com Deus do que a adoração corporativa. Algumas das recentes mudanças na adoração corporativa refletem um esforço para fazê-la mais parecida com a atividade de um pequeno grupo. Contudo, à medida que examinarmos o ensinamento da Bíblia sobre a adoração e o seu conteúdo, vemos que a adoração corporativa é vitalmente importante para todo cristão obediente e em crescimento.
Agradando a Deus em Nossa Adoração
Um Texto Crítico: Hebreus 12:28-29
O livro de Hebreus é particularmente importante aqui, pois ele mostra a relação entre a adoração do Antigo Testamento e a adoração do Novo Testamento, e também porque ele chama atenção à unidade da nossa adoração como povo neo-testamentário de Deus. Hebreus 12:28-29 declara:
Pelo que, recebendo nós um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e temor; pois o nosso Deus é um fogo consumidor.
Esta passagem nos direciona a dois elementos chaves para o nosso pensamento sobre adoração: primeiro, o caráter de Deus como o objeto de nossa adoração, e segundo, nossa resposta a Deus na adoração.
1. O Caráter de Deus.
A primeira verdade sobre a natureza de Deus que precisamos sempre lembrar na adoração é que o nosso Deus é uma Trindade. O único Deus existe eternamente em três pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo. Este aspecto da natureza de Deus não está explícito em Hebreus 12:28-29, mas está assinalado no contexto imediato. Assim, Hebreus 12:23-24 nos lembra que na adoração, nos chegamos pela fé ao Deus vivo e a Jesus, que é “o mediador dum novo concerto”. Aqui, duas das pessoas da Trindade são distinguidas.
Como nosso Deus é triuno, assim, nossa adoração deve ser trinitariana. Deus em Sua unidade é um objeto apropriado de adoração, mas assim são também cada uma das pessoas da Deidade. Nós adoramos a Deus, e também adoramos o Pai, o Filho, e o Espírito Santo. Ao adorar qualquer uma das pessoas divinas, estamos adorando toda a Deidade, pois Deus é um.
Nossa adoração pode se focar em qualquer uma das pessoas divinas, em pontos particulares, pois a própria Bíblia nos mostra que cada uma das pessoas da Trindade está associada com cer14
Dr. Robert Godfrey
tos atos divinos particularmente. Por exemplo, na Bíblia o Pai está particularmente ligado ao planejamento da salvação, para reconciliar os pecadores consigo mesmo. O Filho está ligado à realização da salvação, como o Deus-Homem, vivendo, morrendo e ressuscitando no lugar de pecadores. O Espírito está ligado à aplicação da salvação, trazendo pecadores a Cristo, e dando-lhes fé e vida nova.
A adoração cristã reflete a ênfase da Bíblia sobre a obra de cada pessoa na Deidade. O Pai é particularmente o objeto da nossa adoração. Freqüentemente oramos, como Jesus nos ensinou, “Pai Nosso”. O Filho é o mediador da nossa adoração. Jesus abriu o caminho ao Pai para nós, pela Sua obra salvadora, e nós sempre nos achegamos ao Pai em Seu nome. O Espírito capacita e abençoa nossa adoração. Ele aquece os nossos corações, e nos traz, não para Si mesmo, mas a Jesus e à Sua Palavra. A própria natureza de Deus nos conduz a adorar o Pai, através do Filho, pelo Espírito Santo.
O segundo aspecto do caráter de Deus que vemos explícito em Hebreus 12:28-29 é que Deus é um Deus salvador. Ele preparou um reino inabalável de vida eterna para aqueles que Lhe pertencem. Este reino pertence a Jesus Cristo (Hebreus 1:8), que é o Salvador do Seu povo e o Mediador entre o homem e Deus em toda nossa adoração. Jesus e Seu Evangelho devem sempre permanecer no cerne da nossa adoração. Devemos lembrar que Ele é a eterna segunda pessoa da Trindade, feito homem para ser nosso Salvador. Devemos nos regozijar em Sua vida perfeita de obediência por nós, em Sua morte na cruz onde Ele carregou todos nossos pecados e em Sua gloriosa ressurreição para ser nosso eterno Salvador e Sumo Sacerdote. A adoração falha completamente se Jesus Cristo não estiver no centro. Sua pessoa e obra devem iluminar a adoração do Seu povo. Ele faz Deus completamente conhecido e completamente acessível a nós. Ele é nosso refúgio e fortaleza, um socorro bem presente na hora da angústia (Salmos 46:1). Ele nos salva dos nossos pecados, e nossa adoração deve celebrá-Lo.
O terceiro aspecto do caráter de Deus que vemos em Hebreus 12 é que Deus é um Deus santo, um Deus que é zeloso quanto a Sua adoração. Ele é um Deus que declara Sua oposição ao pecado e que exige um viver santo entre o Seu povo. A epístola aos Hebreus está citando Deuteronômio 4, quando ele declara que Deus é “um fogo consumidor”. Deuteronômio 4 chama o povo de Deus à fidelidade na totalidade de suas vidas, mas especialmente na adoração:
“Guardai-vos de que vos esqueçais do pacto do SENHOR vosso Deus, que ele fez convosco, e não façais para vós nenhuma imagem esculpida, semelhança de alguma coisa que o SENHOR vosso Deus vos proibiu. Porque o Senhor vosso Deus é um fogo consumidor, um Deus zeloso” (vv. 23-24).
Esta passagem em Deuteronômio claramente descansa sobre o segundo dos Dez Mandamentos, que proíbe a falsa adoração, como temos visto. O caráter santo de Deus deve ecoar tão claramente através da nossa adoração, quanto o caráter salvador de Deus.
Estas passagens mostram que o Senhor considera Sua adoração muito seriamente. Elas nos mostram mui especificamente que nossa adoração deve refletir tanto a grande obra salvadora de Deus em Cristo como Seu santo zelo pela pureza da adoração. Somente tal adoração será aceitável a Ele. Quando Hebreus 12:28 fala de adoração aceitável, ele quer dizer adoração que é primeiramente aceitável a Deus.
Esta prioridade precisa ser reafirmada especialmente hoje. Freqüentemente hoje, quando as pessoas falam de adoração aceitável, eles querem dizer adoração que é aceitável a eles mesmos ou, talvez, aceitável especialmente àqueles que não são membros da igreja (os visitantes – NE). Embora a adoração deva falar claramente à congregação reunida, a Bíblia insiste que a adoração deve, acima de tudo, ser aceitável a Deus. E nós devemos lembrar que só podemos saber o que é aceitável a Deus através de um estudo cuidadoso da Sua Palavra.
2. Nossa Resposta a Deus.
Como devemos responder na adoração a este Deus santo e salvador? Hebreus 12 não somente especifica o caráter de Deus para nós na adoração, mas também clarifica o caráter de nossa resposta a Deus: nossa adoração é para ser caracterizada por gratidão e temor. Especialmente em reação à obra salvadora de Deus, devemos ser gratos e cheios de alegria. Os Salmos freqüentemente expressam esta resposta:
Cantai alegremente a Deus, nossa fortaleza; erguei alegres vozes ao Deus de Jacó! (Salmos 81:1)
Vinde, cantemos alegremente ao Senhor, cantemos com júbilo à rocha da nossa salvação. Apresentemo-nos diante dele com ações de graças, e celebremo-lo com salmos de louvor. (Salmos 95:1-2)
Servi ao SENHOR com alegria, e apresentai-vos a ele com cântico. (Salmos 100:2)
Pois me alegraste, SENHOR, pelos teus feitos; exultarei nas obras das tuas mãos. (Salmos 92:4)
Nossa resposta a Deus deve ser de grande alegria e satisfação pela obra salvadora de Jesus. A gratidão deve se manifestar em muitas partes do culto de adoração. Os Salmos nos lembram que a música é um dos modos-chave no qual expressamos nossa alegria e gratidão a Deus. (Olharemos de uma maneira mais completa para a música na adoração mais tarde em nosso estudo). Outras manifestações de gratidão incluem oração e resposta sincera à Palavra pregada.
Em resposta particularmente à santidade de Deus, experimentamos temor e reverência diante dEle. Os Salmos também nos mostram esta reação:
Adorai ao SENHOR na beleza da santidade; tremei diante dele toda a terra. (Salmos 96:9)
O SENHOR reina, tremam os povos; ele está entronizado sobre os querubins, estremeça a terra. O SENHOR é grande em Sião, e
Agradando a Deus em Nossa Adoração
exaltado acima de todos os povos. Louvem o teu nome, grande e tremendo; pois é santo. És Rei poderoso que amas a justiça; estabeleces a eqüidade, executas juízo e justiça em Jacó. És Rei poderoso que amas a justiça; estabeleces a eqüidade, executas juízo e justiça em Jacó. (Salmos 99:1-5)
De vez em quando, na adoração, deve haver uma reflexão séria e sóbria. À medida que nos encontramos com o Deus que criou o céu e a terra, que deu a Lei no Monte Sinai, e que demonstrou Sua ira contra o pecado em Seu Filho no Calvário, devemos nos encher de reverente temor. Deveríamos ficar literalmente e totalmente aterrorizados quando chegamos à presença Deus na adoração. A reverência real nunca é pesada ou tediosa, mas é profunda e emocionante.
Hoje estas duas respostas, alegria e reverência, são freqüentemente colocadas em oposição uma à outra. Um tipo de adoração é chamado alegre, exultante, e exuberante, enquanto outro tipo é chamado reverente, relaxante e respeitoso. Contudo, nas Escrituras, alegria e reverência não são antitéticas, mas sempre complementárias. A adoração pode ser alegremente reverente e reverentemente alegre. Alegria e reverência sempre devem estar unidas em nossa adoração.
Servi ao SENHOR com temor, e regozijai-vos com tremor. (Salmos 2:11)
O SENHOR reina, regozije-se a terra; alegrem-se as numerosas ilhas. Nuvens e escuridão estão ao redor dele; justiça e eqüidade são a base do seu trono. Adiante dele vai um fogo que abrasa os seus inimigos em redor. Os seus relâmpagos alumiam o mundo; a terra os vê e treme... Sião ouve e se alegra, e regozijam-se as filhas de Judá por causa dos teus juízos, SENHOR. (Salmos 97:1-4,8)
Enviou ao seu povo a redenção; ordenou para sempre o seu pacto; santo e tremendo é o seu nome. (Salmos 111:9).
Esta combinação de alegria e temor nem sempre podem ser fáceis de alcançar, mas ela deve ser nosso objetivo. Devemos lembrar que reverência nem sempre significa quietude, e alegria
Dr. Robert Godfrey
nem sempre significa barulho. Alegria e reverência são as primeiras de todas as atitudes do coração pelas quais procuramos expressões apropriadas na adoração. A alegria pode ser intensa no cântico de uma música muito serena. A reverência pode ser expressa num cântico turbulento.
A adoração protestante tradicional tem provavelmente sido forte na reverência, e o que tem sido chamado “adoração contemporânea”, freqüentemente parece entusiasticamente alegre. Mas, proponentes de cada aproximação devem perguntar se suas visões alcançam um equilíbrio bíblico. A adoração tradicional pode proceder tão mecanicamente e formalisticamente que a emoção parece ausente. A adoração contemporânea pode ser tão insistente sobre a alegria e o excitamento que a reverência e a alegria podem ser perdidas.
À medida que procuramos o equilíbrio, devemos começar lembrando que a adoração corporativa é um encontro com o nosso Deus, que é um fogo consumidor; e para isto acontecer, devemos conhecer a vontade de Deus com respeito a como devemos adorar. Este conhecimento vem somente através do conhecimento da Sua Palavra.

A Necessidade da Verdadeira Adoração Cap. II
Dr. Robert Godfrey
O Cristianismo é uma religião na qual indivíduos se tornam uma parte integral do corpo de Cristo. Não somos simplesmente uma associação de indivíduos, mas estamos organicamente unidos uns aos outros (1 Coríntios 12:12-27; Efésios 1:22-23). Expressamos que somos o corpo de Cristo, especialmente quando juntos encontramos a Deus em adoração pública.
Adorando Falsos Deuses
João Calvino chamou, de maneira apropriada, o coração humano de “uma fábrica de idolatria”, querendo dizer que a adoração fiel não acontece naturalmente nos seres humanos caídos. Pecadores se tornam idólatras porque Deus plantou tão profundamente a necessidade dEle mesmo nos corações humanos, que quando não conhecemos ao Deus verdadeiro, inventamos falsos deuses, falsas religiões e falsa adoração. Deus adverte contra tal adoração idólatra no primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim”. A adoração idólatra de falsos deuses é condenada por toda a Bíblia.
Adorando o Deus Verdadeiro de Forma Falsa
Precisamos ouvir o convite da Escritura para promover a adoração santa e fugir da idolatria. Mas a adoração a falsos deuses não é somente o único tipo de idolatria condenada na Bíblia. O segundo mandamento nos ensina que a idolatria não é somente uma questão de adorar falsos deuses, que é proibido no primeiro mandamento. É também uma questão de adorar o verdadeiro Deus falsamente. O segundo mandamento diz, “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êxodo 20:4-6).
Este mandamento claramente proíbe o uso de imagens de Deus na adoração, mas também implicitamente proíbe toda invenção
Agradando a Deus em Nossa Adoração
humana na adoração. A proibição contra imagens significa que devemos adorar o verdadeiro Deus somente na forma que Lhe agrada. O povo de Israel reivindicou que eles estavam adorando o Senhor como o verdadeiro Deus quando eles fabricaram o bezerro de ouro. Eles consideravam a imagem como Jeová (Êxodo 32:5-6). Mas tal falsa adoração ofendeu a Deus e trouxe julgamento sobre o povo.
A história do bezerro de ouro nos lembra que o próprio povo de Deus pode cair em idolatria em sua adoração a Ele. Podemos desejar ser criativos e originais na adoração, mas essa criatividade pode conduzir à idolatria. Repetidamente no Antigo Testamento, Deus julgou Seu povo por causa de falsa adoração. Os filhos de Aarão, Nadabe e Abiú, foram fulminados e caíram mortos, por causa de oferecer “fogo não autorizado perante o SENHOR, contrário ao seu mandamento” (Levítico 10:1). Jeroboão, o primeiro rei do reino norte de Israel, e seus herdeiros foram consistentemente criticados como idólatras por causa das imagens e dos falsos templos e cultos dedicados ao Senhor. O povo de Deus foi censurado nestas ocasiões, não porque adoraram falsos deuses, mas porque adoraram o verdadeiro Deus falsamente.
O Novo Testamento também adverte contra agradar a nós mesmos com a falsa adoração. Paulo escreveu ao Colossenses condenando suas novidades e experiências como “adoração auto-imposta” (Colossenses 2:23). Jesus advertiu contra permitir que tradições dominem e subvertam a Palavra de Deus: “E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus” (Mateus 15:6). Jesus não estava falando sobre adoração quando ele fez esta declaração, mas então ele usou Isaías 29:13, que é sobre adoração, para confirmar suas palavras:
Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem. (vv. 8-9).
Dr. Robert Godfrey
Ele estava dizendo que o nosso culto a Deus, seja na vida em geral ou na adoração coorporativa, não deve ser determinada pela tradição, mas deve seguir o ensinamento de Deus na Bíblia.
Paulo especificamente advertiu os Coríntios contra a falsa adoração na forma que eles estava administrando a Ceia do Senhor. Os pecados e os erros que infectavam sua adoração levaram Paulo a acusá-los de destruir este sacramento: “De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor” (1 Coríntios 11:20). De fato, Deus se preocupa tanto sobre a adoração que Paulo registra que Deus visitou os Coríntios com julgamento por causa dos seus abusos na adoração, relacionados a este sacramento: “Por causa disto há entre vós muitos fracos e enfermos, e muitos que dormem”.
A Bíblia nos lembra que nem nossos instintos, nem nossas tradições e nem nossas experiências são guias confiáveis para a adoração. A própria Bíblia é nosso único guia confiável. Uma das ironias do nosso tempo é que muitos cristãos que afirmam a inerrância da Bíblia não a estudam realmente para descobrir o que ela diz sobre adoração. Nós devemos examinar as Escrituras para encontrar a vontade de Deus para nos guiar em nossa adoração. A Declaração de Cambridge faz a seguinte declaração: “Somente a Bíblia ensina o que é necessário para nossa salvação do pecado e qual é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser medido”.

Guerras da Adoração
Dr. Robert Godfrey
A questão do que agrada a Deus na adoração chega com urgência especial em nossos dias, visto que nas últimas poucas décadas os protestantes americanos têm visto muitas mudanças nas formas de adoração, do que em qualquer período similar desde o século XVI. O resultado é que algumas congregações e denominações têm experimentado sérios conflitos sobre adoração. Igrejas têm se dividido e indivíduos têm se mudado de congregação para congregação, tudo por causa de visões diferentes de adoração.
Algumas das diferenças sobre adoração parecem mais superficiais, embora elas possam gerar debates esquentados.
• Devemos usar um livro de cânticos ou um projetor no alto?
• Devemos nos sentar em bancos ou em cadeiras dobráveis?
• Diferenças mais sérias têm levado ao que alguns têm chamado de “guerras da adoração” dos nossos dias.
• Que estilo de música devemos usar?
• Que tipo de instrumentos devemos tocar?
• Como devemos orar?
• Que tipo de pregação é apropriada?
Frequentemente estas diferenças residem na questão de que se os cultos devem ser orientados para o visitante não-membro da igreja ou para o membro fiel da igreja.
As diferenças sobre adoração podem também refletir teologias e metodologias totalmente diferentes na comunidade cristã. Por esta razão, a Aliança de Evangélicos Confessionais referiu-se ao assunto de adoração em sua Declaração de Cambridge. A Declaração declarou como sua preocupação básica o seguinte: “As igrejas evangélicas de hoje estão cada vez mais dominadas pelo espírito deste século em vez de pelo Espírito de Cristo. Como evangélicos, nós nos convocamos a nos arrepender desse pecado e a recuperar a fé cristã histórica”.
A Declaração então expandiu sobre esta preocupação em relação aos grandes temas do Protestantismo.

Lamentação

O livro de Lamentações era lido em público todos os anos no dia nove do mês Ab, em meados de julho, durante as comemorações da destruição do Templo de Jerusalém.

Nele o autor, Jeremias, chora a destruição de Jerusalém e a desolação de Judá em 587 a.C. – Igreja do VT e expõe um triste comentário dos sofrimentos dos judeus durante e após o cerco da cidade de Jerusalém. O profeta faz uma confissão representativa do pecado da nação, sua rebeldia e sua apostasia. Para Jeremias, esta tinha sido a causa da queda de Judá. O profeta foi de alguma forma testemunha ocular da calamidade que caiu sobre Judá em 587 a.C..

O livro trata da soberania de Deus, da Sua justiça, da moralidade do povo, do julgamento divino e da esperança de bênção futura. Trata da questão do sofrimento a nível nacional e por isso podemos ver um paralelo com a Igreja de hoje. Jeremias sabia muito bem a causa da miséria que se abatera sobre a Igreja: (1) Judá, o povo da aliança, estava em apostasia há muito tempo, mas vivia indiferente em seus pecados. (2) O povo de Judá ignorava as duras lições ensinadas pelo cativeiro do reino do Norte que cometera os mesmos pecados. (3) O povo havia repudiado a aliança persistindo no engano do falso e corrompido paganismo em lugar de abraçar as exigências do Pacto.

Durante gerações Deus tinha advertido freqüentemente pelos profetas que isso resultaria em punição drástica, mas o povo e a liderança não deram ouvidos.

Lamentações é um comentário triste sobre a convicção profética de que quem semeia vento colherá tempestade. “Justo é o Senhor, pois me rebelei contra a sua palavra” (Lm 1:18).

Caiu um forte sentimento de pecado e de culpa sobre a Igreja, com tudo o que aconteceu — destruição de Jerusalém: “Jerusalém pecou gravemente, por isso se tornou repugnante” (Lm 1:8). O povo sentiu que estava em pecado (Lm 3:40). Mas, dentro deste contexto de pecado há uma nota triste: os pastores pregaram falsamente: “Os teus profetas te anunciaram visões falsas e absurdas e não manifestaram a tua maldade, para restaurarem a tua sorte; mas te anunciaram visões de sentenças falsas, que te levaram para o cativeiro” (Lm 2:14).

Aqui há a citação de um grave problema da Igreja de hoje: Os pastores “não manifestam a tua maldade, para restaurarem a tua sorte” – a pregação da Palavra. Por isso o profeta Jeremias confessa todo o pecado em lugar do povo apóstata e dos seus líderes; ele tem em mente a corporatividade do pecado: “como é o povo, assim é o sacerdote” (Os 4:9). O pastor deve reconhecer isso como guia do rebanho; deve clamar pelas ovelhas pedindo o perdão de Deus e a restauração da Igreja.

Por isso o profeta CHORA pelo povo e seus pecados, mas avista um clarão de esperança em meio às densas trevas. Judá, a Igreja, ainda pode ser restaurada e renovada. O profeta se apega à certeza de que Deus sempre cumpre as promessas da aliança (Lm 3: 19-39).

Precisamos de Jeremias hoje, que não usem os púlpitos para fazer pequenas reflexões e apenas “compartilhar” com seus ouvintes alguns textos, mas proclamar com autoridade e fidelidade todo conselho de Deus denunciando o pecado e confortando o povo com a esperança de perdão. O pastor deve chorar por uma Igreja que quebra a aliança de Deus e negligencia a pregação; uma Igreja onde os pastores “rejeitam o conhecimento”, e por isso o povo está sendo destruído (Os 4:6).

Mas Deus é misericordioso e benigno para perdoar um povo que se arrepende! (Lm 3: 25-30). Isso faz parte das exigências da aliança (Dt 30:19-20). A pregação deve trazer sérias advertências, mas uma palavra de esperança para a Igreja.

O livro termina (Lm 5:19-22) fazendo um apelo a Deus. O Profeta está firmado na fidelidade de Deus, mesmo que sejamos infiéis (2 Tm 2:13), pois o pecador arrependido pode ficar certo que Deus o perdoará.

O v. 21 expressa a certeza da soberania de Deus em nos restaurar e nos renovar (“... renova os nossos dias como dantes”) se formos convertidos por Ele. 

Por isso, nas sinagogas, quando este livro era lido, ao chegar ao final do v. 22, o costume era repetir o versículo anterior (v. 21) – “Converte-nos a ti Senhor, e seremos convertidos; renova os nossos dias como dantes”. Ó Deus, levanta pregadores para que alimentem suas ovelhas com a Palavra.

Manoel Canuto

Confissão de Fé de Westminster


CAPÍTULO XIII
DA SANTIFICAÇÃO

I. Os que são eficazmente chamados e regenerados, tendo criado em si um novo coração e um novo espírito, são além disso santificados real e pessoalmente, pela virtude da morte e ressurreição de Cristo, pela sua palavra e pelo seu Espírito, que neles habita; o domínio do corpo do pecado é neles todo destruído, as suas várias concupiscências são mais é mais enfraquecidas e mortificadas, e eles são mais e mais vivificados e fortalecidos em todas as graças salvadores, para a prática da verdadeira santidade, sem a qual ninguém verá a Deus.
I Cor. 1:30; At. 20:32; Fil. 3:10; Rom. 6:5-6; João 17:17, 19; Ef. 5-26; II Tess. 2:13; Rom. 6:6, 14; Gal. 5:24; Col., 1:10-11; Ef. 3:16-19; II Cor. 7:1; Col. 1:28, e 4:12; Heb. 12:14.

II. Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável - a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne.
I Tess. 5:23; I João 1:10; Fil. 3:12; Gal. 5:17; I Ped.2:11.

III. Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que ficam, contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada do homem novo vence, e assim os santos crescem em graça, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus.
Rom. 7:23, e 6:14; I João 5:4; Ef. 4:15-16; II Ped. 3:18; II Cor. 3:18, e 7: 1.


O Verdadeiro Prazer na Adoração


Por John Owen

Muitas pessoas gostam de frequentar cultos de adoração a Deus. Contudo, esse gosto, em si, não é necessariamente um sinal de verdadeira espiritualidade. Temos que perguntar o que é que causa esse gosto. Então descobriremos a diferença entre uma verdadeira mudança espiritual e a mera renovação moral do caráter.

Algumas pessoas podem sentir-se grandemente atraídas pela realização exterior do culto  pregação eloquente, música agradável, cerimônia solene (Ezequie1 33:31,32; João 5:35). É certo que é preciso que haja zelo e ordem no culto que realizamos, mas a pessoa que pensa espiritualmente não está interessada só nessas coisas. Na verdade, essa pessoa tem consciência do perigo de que essas coisas sejam uma distração que nos afasta do culto real. Dois homens podem gostar do mesmo jardim: um, por causa do seu colorido e do seu aroma; o outro, por conhecer de perto a natureza e os benefícios do uso das flores e das ervas. A mentalidade espiritual é como este último.

A satisfação derivada de um culto religioso pode provir do sentimento de dever cumprido. Algum conforto pode ser auferido da ideia de que talvez a frequência aos cultos possa diminuir a culpa por pecados cometidos e conhecidos.

Até crentes se portam de maneiras espirituais por reconhecê-las como deveres, porém há diferença entre cumprir um dever para obter algum conforto, e fazê-lo porque com isso se pode conhecer melhor a Deus.

A razão pela qual alguns podem auferir algum conforto da frequência aos cultos, embora não tenham mentalidade espiritual, é que eles acreditam que com isso conseguem crédito perante Deus (Romanos 10:3). Sua ideia de justiça é de algo que eles próprios constroem. A pessoa sente certo prazer resultante de aparentemente contribuir dessa maneira para o seu próprio crédito.

Outros podem auferir prazer do seu comportamento religioso simplesmente porque secretamente gostam de ser considerados tipos melhores de pessoas. Pode ser que alguns se orgulhem de serem considerados devotos. Isso pode ser especialmente verdadeiro em todo sistema religioso no qual, na competição entre uns e outros, é pela boa reputação que consegue progresso espiritual.

Finalmente, eu penso que devo insistir em que, no caso de alguns, o prazer pelas observâncias religiosas surge de ideias supersticiosas que podem afetar o pensamento em todas as religiões  tanto falsas como verdadeiras. As pessoas podem usar a religião como uma espécie de seguro contra a possibilidade de lhes sobrevir alguma desgraça, se a negligenciarem. Quase não preciso dizer que nenhuma pessoa que pensa espiritualmente busca conforto do culto por essa razão.

O ponto que eu quero defender é que é possível a pessoa sentir-se bem com um comportamento religioso por razões erradas. Grande parte dos cultos que se realizam no mundo é inaceitável para Deus. Em seguida, vou querer examinaras razões pelas quais a pessoa que pensa espiritualmente tem prazer no culto.

As pessoas que têm mentalidade espiritual encontram tanto gozo em todos os aspectos da adoração a Deus que não querem ficar sem ela. É por isso que tem havido tantos mártires eles preferiam morrer a parar de adorar. Muitas vezes Davi expressou a saudade que as pessoas que pensam espiritualmente experimentam quando lhes é negada a oportunidade de adorar (Salmos 42: 1-4; 63:1-5; 84: 1-4). Além disso, o amor que Jesus Cristo tinha pelas atividades de adoração não é posto em dúvida (João 2: 17).

De que maneiras os que pensam espiritualmente auferem seu prazer da participação nos deveres do culto religioso? Como é que essas maneiras diferem das experiências do incrédulo, que também pode encontrar alguns benefícios no culto? Quero sugerir diversas áreas nas quais há diferenças significativas entre estas duas classes de pessoas.

Aquelas em cuja vida ocorreu uma verdadeira mudança espiritual têm prazer nas atividades de adoração porque vêem que a sua fé, o seu amor e o seu gozo em Deus são estimulados por meio delas. Tais pessoas não realizam meras formalidades. Simplesmente praticar alguma ação na presença de Deus não tem valor em si (Isaías 1: 11; Jeremias 7:22,23). Tudo o que Deus nos manda fazer não é simplesmente para que o façamos, mas porque fazê-lo é o meio de avivar o amor, a confiança, o prazer e o temor a Deus. É isso que a mentalidade espiritual experimenta. Para os que a têm, a adoração é o meio de incitar maior amor a Deus.

As pessoas que não têm experiência de renovação espiritual nada mais podem fazer do que realizar formalidades. A tragédia é que esse comportamento insulta o próprio Deus que elas pensam agradar, pois Ele odeia a formalidade vazia. Mas não há nada mais que tais pessoas possam fazer. A força da sua própria incredulidade indica que não há nada senão formalidade em sua adoração (I saías 29:13,14).

Para evitarem essa atuação vazia na adoração, os crentes verdadeiros se preparam para auferir o maior benefício de tais ocasiões. Eles sabem que a fé é o único meio de se aproximarem de Deus; que o amor é o único meio de Lhe obedecerem; que a reverência e o prazer espiritual são os únicos meios de viverem junto dEle. Os que se beneficiam da adoração vêm prestá-la esperando fazer uso de todas estas atividades da alma. Vir ao culto sem saber por quê, sem cuidar como adorar, não é só deixar de beneficiar-se da experiência, mas, de fato, é distanciar-se ainda mais de Deus.

Jamais vi prosperar espiritualmente um crente que negligenciasse a adoração pública. Portanto, seria bom pensar um pouco mais na natureza da verdadeira adoração. O propósito de Deus ao chamar-nos para a adoração é que a nossa fé e o nosso amor sejam alimentados. Isso não acontece automaticamente. Precisamos preparar-nos antes de vir ao culto. Também precisamos usar nossas mentes e nossos corações enquanto adoramos (Eclesiastes 5:1,2). Facilmente podemos distrair-nos muito e preocupar-nos mais com a forma exterior do que com o verdadeiro sentido e poder. Precisamos certificar-nos de que os nossos cultos de adoração contenham só aquelas coisas que Deus pede em Sua Palavra. Qualquer prazer que se possa auferir de cerimônias religiosas não claramente requeridas de nós, não provém de fé, e sim de fantasia!

Admito que pode haver mais prazer no ministério de alguns oficiantes do culto do que de outros. Isso não se deve tanto a diferenças de educação ou de maneiras entre eles, e sim da adequação dos dons espirituais de uns às nossas necessidades melhor que a de outros. Mas essas diferenças do efeito do culto sobre nós de quando em quando não alteram o fato de que a verdadeira adoração está em que ela desperta e revigora a fé e o amor dos que foram renovados espiritualmente. Para todos os outros o único prazer possível na adoração é o prazer de apreciar aexcelência de alguma habilidade puramente humana.

Uma segunda razão para haver prazer na adoração, prazer experimentado pelos que foram renovados espiritualmente, é que as atividades do culto (pregação, oração, louvor, comunhão, etc.) são meios pelos quais os crentes experimentam realmente a presença de Deus. Nós nos aproximamos de Deus na expectativa de que a fé e o amor sejam estimulados; porém quando a expectação se cumpre, o prazer aumenta.

Por meio da adoração a alma renovada espiritualmente recebe certeza do amor de Cristo. É isso que o Espírito Santo faz por nós (Romanos 5 :5), e Ele o faz por meio das atividades do culto.

Na adoração o crente renascido ouve Cristo bater à porta do coração (João 14:23; Apocalipse 3:20). A adoração é o jardim onde Cristo vem encontrar-se com aqueles que Ele ama (Cantares de Salomão 7: 12). As lembranças de outrora, do tempo em que a alma teve esta experiência recebida de Cristo, aumentarão o prazer experimentado em todas as ocasiões subseqüentes.

Vir ao culto cheio de outros pensamentos, ou ignorando quais pensamentos deveríamos ter, será dar surgimento à mornidão, à frieza e à indiferença. Devemos sobressaltar-nos ao encontrarmos esses sinais de decadência em nossos corações.

Finalmente, os que foram renovados espiritualmente podem ter prazer na adoração porque sabem que esse é o meio de glorificar a Deus, sendo esse o principal propósito do culto. Jesus deixou isso claro na oração modelo que ensinou aos Seus discípulos para que dela fizessem uso (Mateus 6:9-l3). Essa oração está cheia do desejo de que a glória de Deus seja manifestada na terra. A nossa segurança e a nossa prosperidade espiritual como crentes depende de ser atendida essa oração. O nosso amor a Deus é que nos motiva a anelar que a Sua glória seja vista. Por isso os crentes se deleitam em fazer qualquer coisa que manifeste essa glória.

Quem não vier ao culto com esse desejo não obterá dessa ocasião nenhum prazer, senão o pobre prazer de supor que o seu culto o glorificará aos olhos de Deus — o que, como já vimos, não acontece.

Extraído do livro Pensando Espiritualmente, John Owen, Editora PES, pp. 65-72 (Recomendamos a leitura deste livro)

O Dia do Senhor e o Culto Reformado


O Dia do Senhor e o Culto Reformado

por Ian Hamilton

Até algum tempo atrás, uma das marcas distintivas do culto reformado era o seu compromisso com a santificação do Dia do Senhor como o tempo divinamente prescrito para que o povo da aliança de Deus adorasse esse Deus da aliança.

Esta perspectiva puritana possivelmente está melhor demonstrada na Confissão de Fé de Westminster:

“Como é lei da natureza que, em geral, uma devida proporção de tempo seja destinada ao culto de Deus, assim  também, em sua Palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, preceito que obriga a todos os homens, em todas as épocas, Deus designou particularmente um dia em sete para ser um sábado (= descanso) santificado por ele; desde o princípio do mundo, até a ressurreição de Cristo, esse dia foi o último da semana; e desde a ressurreição de Cristo, foi mudada para o primeiro dia da semana, dia que na Escritura é chamado dia do Senhor (= domingo), e que há de continuar até ao fim do mundo como o sábado cristão”.
           
Dizendo isso, os puritanos estavam em consonância com os reformadores ao dizer que o shabbat (sábado) não era o único dia em que o povo de Deus se reunia para o culto e também não estavam dizendo que a adoração é um tipo de atividade exclusivamente corporativa e que apenas acontece quando a igreja se une para adorar.

Foram os reformadores e puritanos que resgataram para nós a idéia de que adoração é a resposta do crente momento após momento à Palavra de Deus. Ao mesmo tempo eles tinham uma convicção apaixonada quanto a este ponto. Diziam que o culto cristão tem que ser ancorado e baseado no Dia do Senhor. Existe um debate que sempre está presente entre os próprios reformados com relação ao Dia do Senhor e o shabbat (sábado). Devemos considerar o Dia do Senhor como o shabbat? Isso ficará claro à medida que formos expondo o assunto.

Os que crêem na perpetuidade do sábado cristão como sendo uma ordenança da graça que é obrigatória para todo povo de Deus, precisam lembrar que não estamos simplesmente engajados num conflito para persuadir nossos irmãos em Cristo e que passagens como Colossenses 2:16-17 não estão abolindo o sábado cristão que foi instituído na criação. Nossa batalha é muito mais séria que isto, pois estamos batalhando para resgatar os irmão cristãos dos efeitos corrosivos da cultura contemporânea. O que estamos dizendo é, que o assunto tratado aqui, dentro da tradição reformada, não é somente de persuadir nossos irmãos em Cristo do caráter divino, mandatório do sábado cristão (shabbat) como sendo uma ordenança vinda da criação e do Evangelho, mas na verdade estamos diante de um trabalho ainda mais exigente. Ou seja, de persuadir nossos irmãos em Cristo da sabedoria daquele que nos deu o shabbat, do regozijo que é o sábado cristão e dos efeitos corrosivos e fatais de permitirmos que nossa cultura contemporânea venha formatar nossa vida espiritual e dos nossos filhos.

Fiquei extremamente espantado quando, há alguns anos, passei um período nos Estados Unidos e vi que o dia da final do campeonato de futebol, o evento esportivo mais enfatizado do ano, era praticado no Dia do Senhor e que muitas igrejas evangélicas, cristãs, naquele dia, até mesmo que professavam a fé reformada, cancelavam até os seus cultos dominicais para permitir que as pessoas fossem assistir este jogo. Quase não acreditei que isso estivesse acontecendo. Porém, disseram-me que mais igrejas mudariam até o horário de culto para permitir aos crentes irem a esta final de campeonato.

Eu tenho um filho que gosta muito de futebol e gosta muito de jogar. Outro dia ele me perguntou por que se marcavam tantos jogos exatamente no Dia do Senhor. Meu filho gosta muito de futebol e por isso fica frustrado quando não pode jogar e sente falta do jogo, mas mesmo assim não deixa de ir à igreja para participar dos jogos de futebol e nem ao menos pensa nisso. Mas percebo que esta situação vem continuamente se projetando para tomar controle sobre a igreja. 

Levanto esta questão porque o problema não é realmente a guarda do sábado cristão, mas é algo mais profundo que isso. O assunto com o qual nos deparamos é o caráter de Deus, a Sua autoridade, a verdade de Sua Palavra e a sua suficiência. Se estamos convencidos que Deus é bom, somente bom, e que todos Seus caminhos para Seus filhos são sábios e agradáveis, isso nos deveria persuadir a abraçar com alegria a santificação do Dia do Senhor. Não deveríamos ser levados a pensar que as leis do Dia do Senhor não são mais para nós hoje e que por isso têm sido abandonadas por muitos cristãos que professam a fé reformada e que têm se esquecido de santificar este dia. A razão para isso é que eles não têm compreendido o sentido do Dia do Senhor.

O problema é mais profundo. A verdade é que as pessoas perderam o contato de quem Deus é. Creio que dificilmente poderíamos duvidar que, quando o Dia do Senhor não é uma ordenança graciosa, o culto na igreja deteriora e em seguida a sociedade deteriora. O Dia do Senhor é um testemunho da grande benignidade de Deus para com Seu povo e nos dá um tempo divinamente apontado por Deus para que nós O adoremos e Deus mesmo nos dá o foco apropriado em relação à Sua adoração.

Quero apresentar dois aspectos com respeito à guarda do Dia do Senhor.
1) Explicar o caráter obrigatório do Dia do Senhor para o cristão; essa era a convicção dos reformados e puritanos e que surgiu de uma compreensão correta das Escrituras.
2) Destacar o significado e os benefícios de se observar o Dia do Senhor reservando-o para um culto que honra a Deus.

Caráter Obrigatório
I) Inicialmente gostaria de dizer que o Dia do Senhor foi instituído por Deus na criação. Lemos em Gênesis 2 que Deus terminou sua obra no sexto dia e no sétimo descansou do que havia feito. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou porque nele descansara de todas as obras que havia feito. Antes que o pecado entrasse no mundo Deus já havia providenciado um sábado (descanso) para Adão e Eva e seus filhos. Nas palavras do grande presbiteriano John Murray, o sábado é uma ordenança da criação dada por Deus para o benefício de todas as Suas criaturas. Geralmente se diz que Calvino ensinava que o sábado, como dia de descanso, havia sido ab-rogado na dispensação do Novo Testamento. Para apoiar isso, são citados seus comentários sobre o quarto mandamento e sua exposição em Colossenses 2:16-17. Sem dúvida existe alguma diferença entre a perspectiva de Calvino e os puritanos, mas na minha opinião são circunstanciais e pequenas. Quando lemos o que Calvino escreveu no seu comentário de Gênesis 2:3, escrito em 1561, dois anos depois da edição final das Institutas, o que é bastante significativo, encontramos uma exposição que o reformador faz de forma sucinta, da sua perspectiva do sábado cristão. Calvino disse:

“Quando ouvimos que o sábado foi ab-rogado pela vinda de Cristo, devemos distinguir o que pertence ao governo perpétuo da vida humana e o que pertence propriamente às figuras antigas. O uso destas foi abolida quando a verdade foi cumprida. Descanso espiritual é a mortificação da carne ao ponto de que os filhos de Deus não devem viver para si mesmos ou permitir livremente as ações de suas inclinações. Assim, na medida que o sábado era uma figura desse descanso espiritual, eu digo que isso foi somente por um tempo (obs: com isso os puritanos concordariam). Mas, na medida em que foi ordenado aos homens, desde o início, de que eles deveriam se engajar no culto a Deus, é legítimo que o sábado cristão deva continuar até o fim do mundo. O sábado é uma ordenação da criação que é perpétua”.

II) A segunda coisa que tenho para afirmar é que o sábado cristão está baseado no exemplo divino. Esse é o ponto de Moisés em Êxodo 20:11. O ritmo do homem alternado entre trabalho e descanso é o sério padrão do ritmo criador. John Murray faz a seguinte afirmativa: “Podemos pensar no exemplo que Deus nos deu de trabalho e descanso como sendo um padrão de conduta eterno para a raça humana nas ordenanças de trabalho e descanso”.

III) A ordem de Deus para que guardemos o Dia do Senhor está embutida nos dez mandamentos. O quarto mandamento garante e valida a permanência do mandamento para guardarmos o Dia do Senhor e estabelece a guarda do sábado cristão no coração da vida de adoração do povo de Deus. Acho absurdo quando ouço irmãos que, dizendo-se reformados, tentam me convencer que o “shabbat”, o sábado, foi abolido, deixando um dos dez mandamentos fora de validade para a vida do povo de Deus. Na verdade, Deus deu validade à guarda do sábado por colocá-lo dentro do decálogo.

IV) Nosso Senhor Jesus Cristo destacou a importância da permanência do shabbat. Jesus nos diz em Marcos 2.27: “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado; de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado”. O que mais poderíamos dizer com relação a isso? A minha preocupação é simplesmente mostrar a importância do fundamento da guarda permanente do shabbat. Deus tem gravado esta verdade em Sua Palavra e nós nos desviamos dessa ordenança apenas para sermos prejudicados espiritualmente. Pertence nossa obediência à verdade revelada de Deus e nossa submissão ao nosso Pai amorável. Tendo estabelecido o fundamento bíblico para o dia do Senhor e considerando a transição do sábado para o domingo, quero considerar quais os benefícios e o significado de guardar o dia do Senhor.

Significado e Benefícios
I) O shabbat nos dá uma oportunidade de buscar o Senhor e adorá-lo sem distração. No ano passado passei um tempo no Marrocos visitando famílias cristãs. Viver num país muçulmano como aquele significa não ter liberdade para guardar o Dia do Senhor como os cristãos gostariam. Mas em países como Brasil e Escócia ainda temos o privilégio precioso dado por Deus de preservar e guardar o Dia do Senhor como um dia santo. Irmãos, valorizem o Dia do Senhor; lutem por ele; os assuntos relacionados com a guarda do dia de descanso são profundos. Essa provisão que Deus nos faz que o adoremos sem distração alguma é uma visão que vem do próprio Deus.

II) O shabbat nos dá oportunidade de adorar coletivamente a Deus e buscá-lO juntos. O shabbat enfatiza o caráter bíblico e corporativo do culto que se deve prestar a Deus. O nosso Deus fez uma provisão graciosa por seu povo. Ou seja, que O adoremos juntos. Esta verdade perece dia após dia em nossa época. Desde o iluminismo, na cultura ocidental e particular, o indivíduo tornou-se o centro de todas as coisas e essa preocupação absorvente com o indivíduo desfechou um golpe mortal no pensamento bíblico com respeito à aliança. Os cristãos não têm mais qualquer doutrina, não têm mais esta compreensão do caráter coletivo da Igreja, e mesmo cristãos que se professam reformados não têm mais qualquer sentido do caráter corporativo do culto da aliança. Estou cada vez mais convencido que o sábado cristão é talvez o meio principal usado por Deus de educar o seu povo na vida e no culto do pacto. Guardar o Dia do Senhor, o sábado cristão, é o antídoto poderoso para aquele individualismo absorvente que marca tanto o mundo que nós vivemos como a igreja de Cristo.

III) O shabbat coloca diante de nós os grandes feitos de Deus na criação e na redenção. No sábado cristão somos graciosamente capacitados por Deus em nos centralizarmos na criação e na redenção e despertar nossos corações e mentes ao seu louvor. Calvino coloca o seu dedo exatamente nesse ponto. No livro II das Institutas, capítulo 8, ele diz:

“Durante o repouso do sétimo dia, na verdade, quando Deus determinou que se descansasse no sétimo dia, o legislador divino queria falar ao povo de Israel do descanso espiritual quando os cristãos devem deixar de lado o seu trabalho para permitir que Deus trabalhe neles”.

Em outras palavras, o shabbat nos dá oportunidade de repousar de nossas próprias obras e nos concentrar nas obras de Deus. Nesse sentido, o shabbat é um símbolo evangélico, um glorioso símbolo semanal da justificação gratuita. Nós vivemos em uma época em que os cristãos andam em busca de sinais e símbolos. Demos a eles o grande símbolo do Evangelho: um dos grandes símbolos e sinais do Evangelho é o shabbat que nos foi dado por Deus.

IV) O shabbat destaca a importância dos cultos matinais e vespertinos. Parece muito simplório. Mas mesmo assim é importante falar deles. Honrem o sábado cristão, não somente uma parte dele, mas como um todo. Se havia uma coisa que caracterizava a religião puritana, a prática puritana, era a maneira cuidadosa que brotava de seus corações e pela qual eles se entregavam alegremente, de forma não legalista, à guarda do Dia do Senhor.

V) O Dia do Senhor é uma preparação para o céu. Ouçamos as palavras de Richard Baxter: “Qual o dia mais apropriado para subir ao céu do que aquele em que Ele ressurgiu da terra e triunfou completamente sobre a morte e o inferno? Use o seu shabbat como passos para a glorificação até que tenha passado por todos eles e chegue à glória”. A religião puritana floresceu no solo regozijante da guarda do sábado cristão. É por causa destas coisas que somos chamados em Isaías 58, pelo próprio Senhor, para considerarmos o sábado como um deleite e a isso ele adiciona uma promessa. Se guardarmos seus sábados como sendo um deleite, encontraremos nossa alegria no Senhor.

Esse capítulo 58 de Isaías é mais uma confirmação de que a guarda do sábado cristão deveria ser considerada como parte da Lei Moral e não simplesmente mais uma observância pertinentes às leis cerimoniais. Esta passagem de Isaías onde o mero cerimonialismo é denunciado pelo profeta, há um apelo para a guarda do sábado como sendo importante para o culto espiritual.

Sei que existe o perigo de dar ao sábado cristão um lugar central no culto, fazendo com que ele torne-se um exercício de justiça própria. Sabemos da condenação tremenda feita pelo Senhor em Isaías 1. Mas os crentes reformados deveriam guardar o Dia do Senhor de forma santa. Devemos chamá-lo de um deleitoso. Por quê? Por causa de nossa obediência ao nosso Deus e amor ao nosso Salvador. Jesus disse: “Se vocês me amam, guardem meus mandamentos”.

Neste sentido a guarda do Dia do Senhor, o sábado cristão, ou é o resultado da obediência legalista, ou da obediência evangélica. Se for o produto de uma obediência legalista, a guarda do dia do Senhor será sem alegria, monótona, formal e alguma coisa que simplesmente traz auto-justiça e vaidade pessoal. Mas se a guarda do Dia do Senhor é o resultado de uma obediência evangélica, será profundamente regozijante. Diremos como o salmista: “Alegrei-me quando me disseram, vamos à casa do Senhor”. Se for uma guarda por causa de uma obediência evangélica, será algo refrescante que nos revigora e nos humilha.

John Murray, cujos escritos trouxeram uma impressão inapagável na minha vida quando moço (Por exemplo: Redenção, Conquistada e Aplicada (Cultura Cristã ― Obra que considerei como a melhor peça sobre justificação jamais escrita por alguém), disse: “O shabbat semanal é uma promessa, um sinal, e um antegozo daquele descanso consumado. A filosofia bíblica do shabbat é de tal maneira, que negar sua perpetuidade é privar o movimento da redenção de uma das suas mais preciosas características”.

 Vivemos numa época em que mais do que nunca precisamos resgatar o shabbat para o povo de Deus, porque amamos o povo de Deus e desejamos seu bem diante de Deus. Sabemos que Deus quer abençoar Seu povo com isso. Mas sabemos também que a bênção que Ele deseja dar nunca virá sem a honra que o povo deve ao Dia do Senhor. Pelo bem espiritual dos nossos filhos devemos educá-los ensinando a honrar o Dia do Senhor, mas não como uma coisa rotineira e sem alegria. Como poderia o cultuar a Deus e esperar nEle ser algo monótono ou cansativo? Na verdade, o Dia do Senhor foi algo criado por Deus para o bem de Seus filhos. Estou quase convencido que o sucesso dos puritanos pode ser traçado por seu compromisso de guardar o Dia do Senhor para honra de Deus. Deus abençoou grandemente seus labores, seus escritos, porque foram homens e mulheres que honraram o dia do Senhor.

Finalmente cito Baxter porque creio que suas palavras expressam o coração da compreensão puritana com respeito ao shabbat: “Que dia é mais apropriado para subir ao céu do que aquele em que ele ressurgiu da terra e triunfou plenamente sobre a morte e o inferno? Use seus shabbats como passos para a glória até que tenha passado por todos eles e lá tenha chegado”.

O Dia do Senhor é para o povo do Senhor como um antegozo ou penhor do céu que nós tanto almejamos. Nós desejamos e sonhamos com aquele dia em que estaremos com o Senhor para sempre. Até que aquele dia venha, façamos do Dia do Senhor tudo aquilo que Deus gostaria que fizéssemos. Que seja o pulso palpitante da vida espiritual da Igreja e que partindo de nossa obediência evangélica nos reunamos para o encontro com nosso Deus e para receber as promessas que Ele decidiu nos dar, para aqueles que honram o Seu dia, porque assim honram aquEle que instituiu esse dia.
Amém.