A VOCAÇÃO EFICAZ
Anthony Hoekema
Diversas respostas tem sido dadas à essa questão. Alguns (semi-pelagianos earminianos) têm dito que a aceitação do convite evangélico depende, em última instância, exclusivamente da vontade do ser humano. Segundo esse ponto de vista, todos os que ouvem o evangelho têm a habilidade para aceitá-lo – quer pela capacidade volitiva natural para responder (semi-pelagianos), quer por causa da suficiente graça habilitadora dada a todos, pela qual a depravação herdada pode ser superada (arminianos). Deus não determina, de forma alguma, o resultado da vocação evangélica – seu resultado é dependente apenas da vontade humana. Aqui está portanto, um ponto no universo de Deus onde Deus não está em completo controle; ele escolhe se retrairm esperar e ver o que as pessoas escolherão fazer com o convite do evangelho. A soberania de Deus, tão claramente ensinada na Escritura, é negada.
Agostinho, (354-430) e aqueles que seguiram a tradição teológica agostiniana, afirmam que a razão pela qual as pessoas aceitam o convite do evangelho deve ser buscada, em última instância, não na vontade humana (ainda que admitam que a vontade humana é ativa nessa aceitação), mas na graça soberana de Deus. A tradição agostiniana tem sido mantida por teólogos calvinistas ou reformados. Segundo a teologia reformada, seres humanos são, por natureza, inabilitados a responder ao convite do evangelho com arrependimento e fé. A razão disso é que são todos nascidos em estado e condição de pecado conhecido como "pecado original", consistindo isso em "depravação total" (permeante) e "habilidade espiritual". Por causa de sua habilidade espiritual a pessoa não regenerada é incapaz, à parte da obra especial do Espírito Santo, de mudar a direção básica de sua vida, do amor próprio para o amor à Deus. A menos que Deus, pelo seu Espírito, abra o coração do ouvinte, capacitando-o a crer, ele ou ela jamais poderá aceitar o convite do evangelho. Essa abertura do coração é o que o descrito pelos teólogos reformados como vocação "interna" ou "eficaz".
A base bíblica da vocação eficaz
Nesse ponto, precisamos parar um pouco e refletir sobre o que a Bíblia ensina a respeito do que as criaturas caídas são por natureza. São elas naturalmente – isto é, à parte do trabalho especial do Espírito Santo – capazes de responder ao convite do evangelho em fé e arrependimento?
A Bíblia ensina que elas não são. Lemos primeiramente I Coríntios 2.14: "Ora, o homem natural (ou ‘não espiritual’; grego: psychicos) não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente". Paulo se refere aqui ao homem que é natural, não regenerado. Tais pessoas não só não entendem as coisas que vêm de Deus, mas, pior, essas coisas lhes são loucura. Paulo diz algo semelhante em Romanos 8.7: "Porque o pendor da carne ("a mente pecaminosa", "a mente carnal"; grego: to phronema tes sarkos) é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar". A "mente pecaminosa" é a mente do ser humano pela sua natureza; se essa mente é hostil a Deus (ou "inimiga de Deus") e não está apta a submeter-se à lei divina, como pode ela responder favoravelmente ao apelo para arrependimento e fé?
A condição para os seres humanos naturais é descrita com palavras devastadoras em Efésios 2.1-2: "Ele vos deu vida, estando vós mortos em vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que atua agora nos filhos da desobediência". Nossa condição natural não é somente de enfermidade espiritual – uma doença que pode, talvez, ser curada com algum esforço de nossa parte. Não, nossa condição é uma de morte espiritual. E como pode alguém espiritualmente morto responder favoravelmente ao convite do Evangelho?
Jesus ensinou claramente que não somos aptos por natureza a aceitar o convite do evangelho, quando ele disse a Nicodemos: "... em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo (literalmente, nascer do alto; grego: gennethe anothen), não pode ver o reino de Deus... quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus" (Jo. 3.3-5). Não somente não podemos entrar no reino, como não podemos sequer vê-lo, a não ser que recebamos vida do alto. Veja o que Jesus disse aos judeus: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer..." (Jo. 6.44). Somos espiritualmente mortos e, por isso, precisamos ser vivificados espiritualmente antes que possamos responder afirmativamente às sinfonias da graça de Deus: "Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com ele – pela graça sois salvos..." (Ef. 2.4,5).
Se nossa condição natural é como a descrita nas passagens mencionadas, é óbvio que não podemos por nós mesmos aceitar o convite do evangelho. Pedir a pessoas que são, por natureza, espiritualmente mortas, hostis a Deus, inaptas para entender as coisas do Espírito de Deus e inapta para se submeter à lei de Deus, que respondam favoravelmente ao convite para arrepender-se dos pecados e crerem em Cristo, é como pedir a uma mulher totalmente surda que responda uma questão, ou a um cego que leia um recado. É como ficar em pé na beira do telhado e pedir a uma pessoa na calçada que voe até você.
Será que a Bíblia ensina algo sobre vocação eficaz? – um chamado em que Deus eficazmente nos habilita ao convite do evangelho com um sim? Na verdade, ensina. Veja, por exemplo, I Coríntios 1.22-24: "Porque tanto os judeus pedem um sinal, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus."
Quando Paulo pregava, sentia que alguns aceitavam e outros rejeitavam sua mensagem. A única maneira pela qual ele teria descoberto que o Cristo crucificado que ele pregava era uma pedra de tropeço para alguns judeus e loucura para alguns gregos teria sido por pregar a eles e observar suas respostas. Mesmo aqueles aos quais o Cristo pregado era pedra de tropeço ou loucura, porém, teriam recebido o convite do evangelho. Quando Paulo acrescenta: "...para os que foram chamados tanto judeus como gregos; pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus", ele diz nada mais que "para aqueles a quem Deus eficazmente vocacionou" – chamados de maneira a responder favoravelmente ao evangelho. Assim, a palavra kletois, como usada nessa passagem, deve se referir à vocação eficaz.
Para provar que a vocação eficaz é descrita aqui, pergunte a si mesmo se aqueles para os quais o Cristo crucificado é pedra de tropeço ou loucura, foram vocacionados. Se Paulo estava pensando apenas no convite do evangelho, a resposta seria Sim. Mas Paulo aqui, particularmente exclui os ouvintes incrédulos do número daqueles que foram chamados; só aqueles para os quais o evangelho é poder de Deus e sabedoria de Deus, são denominados de kletoi, os chamados. Nesse sentido, de que há uma vocação eficaz, aqueles outros não foram chamados.
Para mais uma vez realçar a diferença entre esses dois tipos de vocação, compare essas passagens com Lucas 14.24: "Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados (literalmente, aqueles vocacionados; grego: ton keklemenon) provará da minha ceia". Na passagem de Lucas, nenhum dos chamados é salvo; mas na passagem de I Coríntios só os chamados são salvos.
A distinção, portanto, entre esses dois tipos não é somente uma "ficção calvinista", como alguns arminianos alegam, mas amorosamente baseada na Escritura.
Olhemos agora para Romanos 8.28-30, destacando de início o verso 28: "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo seu propósito".
Quem são as pessoas para as quais todas as coisas cooperam para o bem (ou para cujo bem Deus opera em todas as coisas)? Elas são descritas de duas maneiras: os "que amam a Deus" e aqueles "que foram chamados segundo seu propósito". A primeira dessas expressões fala do que esse povo faz: eles "amam a Deus". A Segunda expressão fala do que Deus faz: Deus os vocaciona "segundo seu propósito" (tais kata prothesin kletois). Certamente, há muito mais significado, aqui, no termo kletois (aqueles "que foram chamados") do que apenas terem sido convocados pelo convite do evangelho. Essa certeza vem do complemento: o chamado do evangelho é uma vocação segundo seu propósito. Contudo, é certo dizer que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que são chamados, sem considerar se crêem ou não? É possível que todos os que recebem o chamado são pessoas que amam a Deus? Obviamente não. Aqui, como em I Coríntios 1.24, a palavra kletois (aqueles "que foram vocacionados") refere-se à vocação eficaz: aqueles em quem Deus, pelo Espírito Santo, tem efetivamente concedido vida, habilitando-os a responder em fé ao convite do evangelho. Esse chamado é "segundo seu propósito" de conduzi-los à salvação – propósito fundado da escolha deles em Cristo antes da criação do mundo (Ef. 1.4). Os versos que se seguem, 29 e 30, dão a razão da declaração feita no verso 28: "(29)Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. "(30) E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou".
"Chamados", no verso 30, deve ser entendido também como se referindo à vocação eficaz, por duas razões:
1. "Chamado" está apenas expressando na forma de verbo (ekalesen) aquilo que foi dito no verso 28 em forma de substantivo: "(aqueles) que foram chamados" (kletois). As pessoas mencionadas como "aqueles chamados" no verso 30 são as mesmas pessoas "chamadas segundo seu propósito", do verso 28. Assim, os versos 29 e 30 fundamentam o verso 28.
2. Todos que foram "chamados" no verso 30 são também mencionados como justificados: "aos que chamou a esses também justificou". Ninguém pode dizer que todos os que receberam o chamado do evangelho foram justificados independentemente de crerem. Mas pode-se dizer que todos os que foram efetivamente vocacionados são justificados – e que eventualmente serão glorificados. "Chamados" portanto, no verso 28 e 30, querem dizer, "efetivamente vocacionados".
Outra passagem onde a palavra "chamado" é usada no sentido de "vocação eficaz" é em I Coríntios 1.9: "Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados (eklethete, de kaleo) à comunhão do seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor". A "comunhão do Filho de Deus" significa união e comunhão com Cristo – uma comunhão que implica que Cristo susterá até o fim aos crentes aos quais Paulo escreve (v.8). "Chamado", nessa passagem, não pode significar simplesmente o convite do evangelho que pode ser rejeitado ou aceito; tem que significar a "vocação eficaz"através da qual os amigos cristãos foram trazidos a um vivo relacionamento com Cristo.
Paulo usa freqüentemente a palavra "chamado" nesse sentido de "vocação eficaz". Veja, por exemplo, Romanos 1.7; 9.23,24; I Coríntios 1.26; Gálatas 1.15 e Efésios 4.1,4). Esse uso não é, contudo, restrito a Paulo; nós encontramos a mesma palavra, usada como o mesmo por outros autores do Novo Testamento.
Pedro a utiliza dessa forma em I Pedro 2.9: "Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou (kalesantos, de kaleo) das trevas para a sua maravilhosa luz." Pedro se dirige aos seus leitores como "povo escolhido" e "povo de propriedade exclusiva de Deus", deixando claro que o "chamado" aqui significa mais que o convite do evangelho que pode ser recusado. Vocês não estão mais nas trevas, mas na luz, diz Pedro, por causa da "vocação eficaz" de Deus.
Devemos olhar também o que diz II Pedro 1.10: "Por isso, irmãos, procurai com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição...". Nessa passagem, o não só o chamado é mencionado no mesmo fôlego que a eleição, como também é tratado como inseparavelmente unido à eleição. Há apenas um artigo definido (íen) antes dos dois substantivos, klesin (chamado) e eklogen (eleição). Isso significa que essas duas palavras são tratadas como uma unidade e devem ser vistas como tal: não nosso chamado separado da nossa eleição, mas chamado e eleição juntos.
Obviamente, "chamado" (klesin), aqui, não pode se referir ao convite do evangelho apenas, por duas razões:
1. Está ligado com "eleição" (eklogen) por um artigo definido, e "eleição" só pode dizer respeito à escolha que Deus fez desde a eternidade. Um chamado que seja uma mesma peça com a eleição, só pode ser a "vocação eficaz".
2. Não adianta dizer a alguém que assegure ou confirme seu convite do evangelho; uma vez escutado o evangelho ou uma vez lida a mensagem do evangelho, a pessoa já foi chamada nesse sentido. "Confirmar a vossa vocação" deve significar: confirme que você tenha sido eficazmente vocacionado – isto é, que você tenha sido eleito para a vida eterna em Cristo. Você pode se assegurar disso, Pedro explica, "reunindo diligentemente... fé... conhecimento... domínio próprio... perseverança... piedade... fraternidade... e amor" (vs. 5-7). Observando os frutos da vocação eficaz: em sua vida, Pedro está dizendo, você pode ter certeza de quem tem sido efetivamente vocacionado.
Um uso similar da palavra "chamado" pode ser achado no primeiro verso da epístola de Judas: "Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados (kletois), amados em Deus Pai, e guardados em Jesus Cristo...". Nem todos os que recebem o convite do evangelho são amados pelo Pai e guardados em Cristo, mas somente aqueles que são eficazmente trazidos à comunhão do Deus Triuno. Há também, uma passagem no livro do Apocalipse em que a palavra "chamado" é usada para descrever os "chamados, eleitos e fiéis" de Cristo: "Pelejarão eles contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois é o Senhor dos senhores e Rei dos reis; vencerão também os chamados, eleitos e fiéis que se acham com ele" (Ap. 17.14). Concluímos que o Novo Testamento realmente ensina que há uma vocação efetiva de Deus, diferente do convite do evangelho.
Como definiremos a vocação eficaz? Resumindo, a vocação eficaz é o convite do evangelho tornado efetivo para a salvação no coração e vida do povo de Deus. O convite do evangelho foi descrito nos capítulos anteriores. A não ser que Deus sobrenaturalmente transforme o coração da pessoa que recebe o convite, ela não poderá responder em fé. Essa transformação do coração ocorre na vocação eficaz. Uma definição mais completa da vocação eficaz pode ser esta: a ação soberana de Deus através do Espírito Santo, pela qual ele habilita o ouvinte do convite do evangelho a responder ao apelo em arrependimento, fé e obediência.
Os alvos da vocação eficaz
A última palavra do período acima, obediência, sugere outro aspecto da vocação eficaz, isto é, seus alvos. Isto está implícito no conceito da vocação: somos chamados para algumas coisas, para algum alvo ou fim. O Novo Testamento indica, de diversas maneiras, a que alvos a vocação eficaz do Senhor nos convoca.
Somos chamados à comunhão com Jesus Cristo (I Co. 1.9). Somos chamados à vida eterna (I Tm. 6.12), ao reino e à glória de Deus (I Ts. 2.12) e a uma vida de santidade (I Ts. 4.7; veja II Tm. 1.9). Somos chamados a seguir a Cristo como um exemplo de sofrimento ( I Pe. 2.21). Somos chamados à liberdade (Gl. 5.13) e paz (Cl. 3.15). Somos chamados para ganhar o prêmio: "prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Jesus Cristo"(Fp. 3.14).
A vocação eficaz convoca-nos a uma vida de qualidade distintiva, uma vida diferente, que nos separa moral e espiritualmente deste mundo mau. Usando a linguagem de Efésios 4.1, aqueles que são eficazmente vocacionados devem viver de modo digno da sua vocação.
Viver este tipo de vida, porém, requer nosso diligente envolvimento. Ainda que a vocação eficaz seja fruto da soberania de Deus, traz ao cenário toda nossa responsabilidade. Como John Murray disse: "A soberania e eficácia da vocação eficaz não anulam a responsabilidade humana; antes, fundamentam e confirmam essa responsabilidade. A magnitude da graça enaltece a obrigação".
A vocação eficaz na teologia reformada
Como já mencionamos, a doutrina da vocação eficaz tem sido e ainda é um aspecto significante da teologia reformada. Encontramos referência a essa definida vocação já em Agostinho: "Quando o evangelho é pregado, alguns crêem, alguns não crêem; mas aqueles que crêem atentando à voz do pregador vinda de fora, ouvem a voz do Pai no interior, e aprendem; ao passo que, os que não crêem, ouvem exteriormente, mas interiormente não ouvem nem aprendem; - isto quer dizer que àqueles é dado crer, mas a estes não é dado. Porque "Ninguém pode vir a mim", diz Jesus, "se o Pai que me enviou não o trouxer..." (Jo. 6.44). João Calvino também ensina sobre a vocação eficaz, denominando-a "vocação interior": "... Somente quando Deus brilha em nós pela luz do seu Espírito é que obtemos qualquer proveito da Palavra. A vocação interior, a qual só é eficaz e peculiar ao eleito, é distinta da voz de homens, que vem do exterior".
Os Cânones de Dort falam da vocação eficaz. Geralmente qualificam a palavra "vocação" com a palavra "eficaz". Observe, por exemplo, a seguinte declaração: "Os eleitos não são melhores ou mais dignos que os outros, mas envolvidos na mesma miséria. São escolhidos, porém, em Cristo, a quem Deus constituiu, desde a eternidade, Mediador e Cabeça de todos os eleitos e fundamento da salvação. E, para salvá-los por Cristo, Deus decidiu dá-los a ele e efetivamente chamá-los e atraí-los à sua Comunhão por meio da sua Palavra e do seu Espírito." Em outro lugar no Cânon são mencionados, no mesmo parágrafo, tanto o convite do evangelho quanto a vocação eficaz: "Isto não pode ser atribuído ao homem, como se ele se distinguisse por sua livre vontade... mas isto deve ser atribuído a Deus: como ele os escolheu em Cristo desde a eternidade, assim ele os chamou efetivamente no tempo".
A Confissão de Fé de Westminster igualmente ensina a vocação eficaz: "Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, no tempo por ele determinado e aceito, tirando-os daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza para a graça e salvação em Cristo Jesus".
Como a vocação eficaz se relaciona com o convite do evangelho? Como temos visto, esses dois não são o mesmo, nem todos que são convocados pelo evangelho respondem em arrependimento e fé; "muitos são chamados, mas poucos os escolhidos" (Mt. 22.14). Por outro lado, todos os que são eficazmente vocacionados voltam-se para Deus em fé e arrependimento.
É importante, contudo, conservar juntos esses dois tipos de chamado. Teólogos reformados freqüentemente falam do convite do evangelho e da vocação eficaz como dois aspectos ou lados do mesmo chamado. O poderoso trabalho do Espírito unifica-os na apresentação da Palavra pelo pregador ou professor. Como o Espírito opera?
1. Abrindo o coração e habilitando o ouvinte a responder (At. 16.14);
2. Iluminando a mente para que o ouvinte entenda a mensagem do evangelho (I Co. 2.12,13; cf. II Co. 4.6);
3. Concedendo vida espiritual para que o ouvinte volte-se a Deus em fé (Ef. 2.5). Pode-se dizer que a palavra ouvida no convite do evangelho é feita efetiva na vocação eficaz. Herman Bavinck diz assim: "É uma só e a mesma, a palavra que Deus permite ser proclamada através do convite do evangelho e a que Deus escreve nos corações dos ouvintes através do Espírito Santo na vocação interna (ou eficaz)".
Considerando algumas objeções
Neste ponto será útil considerarmos certas objeções levantadas contra doutrina da vocação eficaz. Uma delas é que essa doutrina tira o incentivo para evangelismo e missões. Se só os que são eficazmente vocacionados é que estão aptos a responder ao convite do evangelho em fé, por que devemos nós pregar? Por que simplesmente não esperar que Deus chame eficazmente os seus eleitos? Por acaso essa doutrina não torna inúteis os missionários e pregadores?
A resposta é não. A pregação e o ensino do evangelho são meios ordenados por Deus através dos quais as pessoas são trazidas à fé. Observe estas palavras de Paulo: "Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E crerão naquele de que nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue...? (Rm. 10.14). Outra maneira de responder a essa objeção é demonstrar que, ainda que só os eleitos de Deus (os que foram escolhidos antes da criação do mundo) serão eficazmente vocacionados e serão salvos, nos não sabemos quem são. Outra vez Bavinck é útil aqui: "O evangelho é proclamado aos seres humanos, não como eleitos ou réprobos, mas como pecadores em necessidade de redenção". É nossa tarefa pregar o evangelho a todos; precisamos confiar que Deus habilitará os que ele escolheu em Cristo a responder com a fé salvadora. A doutrina da vocação eficaz, portanto, longe de ser empecilho para evangelismo e missões, é incentivo e fonte de encorajamento: confiamos que Deus trará os seus à salvação através da pregação e do ensino da sua Palavra.
A segunda objeção é esta: A doutrina da vocação eficaz não põe nas mãos de incrédulos uma arma com que se desculpar de não ter aceito o evangelho? À luz desse ensino, não podem se defender por não terem crido, dizendo que não foram chamados com a vocação correta e, assim, culpar Deus pela descrença?
Como resposta, podemos dizer que a Bíblia ensina claramente que os que rejeitam o convite do evangelho só podem culpar a si mesmos. Jesus disse aos judeus incrédulos em Jerusalém: Examinais as Escrituras, porque julgais Ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida" (Jo. 5.39,40). Noutra ocasião, Jesus chorou sobre Jerusalém, dizendo: "...Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes" (Mt. 23.37). E quando Paulo estava em Antioquia da Pisídia, disse aos judeus que o acusavam e insultavam: "Cumpria que a vós outros fosse pregada a palavra de Deus. Mas, posto que a rejeitais e a vós mesmos julgais indignos da vida eterna, eis que nos volvemos para os gentios" (At. 13.46). A Bíblia nunca diz que alguém rejeita o evangelho porque Deus não o chamou eficazmente; a rejeição do evangelho é sempre atribuída à recusa humana à crença. Os Cânones de Dort colocam assim: "Em Deus não está, de forma alguma, a causa ou culpa dessa incredulidade. O homem tem essa culpa, assim como a de todos os demais pecados".
Uma última objeção que pode ser levantada é a de que a doutrina da vocação eficaz viola o paradoxo da soberania divina e responsabilidade humana, que discutimos antes. Ali eu demonstrei que uma vez que os seres humanos são tanto criaturas quanto pessoas, são ao mesmo tempo totalmente dependentes de Deus e capazes de fazer decisões. Isso significa que Deus não lida conosco como com robôs, mas como pessoas. Isso também significa que tanto Deus como os crentes estão envolvidos no processo da salvação; em fé, arrependimento, santificação e perseverança, tanto Deus trabalha como nós trabalhamos. Se é assim, afirma que objeta, por que a vocação eficaz não é também um trabalho em que Deus e o homem atuem? A vocação eficaz como você a define não significa que Deus está nos tratando como a robôs?
Que direi? A resposta a essa objeção depende da antropologia de cada um – da perspectiva do estado natural do homem após a queda. Se você acredita que o estado do ser humano caído é de neutralidade moral e espiritual de modo que eles podem fazer o bem e o mal, como quiserem (pelagianismo), então você nem sente a necessidade de uma vocação eficaz ou de uma regeneração. Se você acredita que nosso estado natural é de enfermidade moral e
espiritual, mas que ainda temos capacidade de responder afirmativamente ao chamado do evangelho (semipelagianismo), você não precisa de uma vocação eficaz. Se você acredita que ainda que sejamos parcial ou totalmente depravados, Deus dá a todos suficiente graça capacitadora de maneira que qualquer que ouça o evangelho está apto para aceitá-lo em cooperação com essa graça (arminianismo), você não sente a necessidade de uma vocação eficaz. Mas se você crê que estamos por natureza totalmente mortos nos nossos pecados e, assim, incapacitados para responder favoravelmente ao evangelho se Deus, em sua graça soberana não transformar nossos corações tornando-nos vivos espiritualmente (ponto de vista reformado), você entende quão desesperadamente precisa da vocação eficaz de Deus. Este último ponto de vista é, creio, a que mais fielmente reflete o ensino bíblico.
Olhe esta ilustração. Suponhamos que você esteja se afogando e seus amigos estejam na praia a uma distância em que você possa ser ouvido. Você não pode nadar. Desejando respeitar sua integridade pessoal, e querendo capacitá-lo ajudar-se o máximo possível, um de seus amigos na praia, um excelente nadador, grita dizendo que você nade imediatamente para a praia. O conselho, mesmo que com boa intenção, é pior que inútil, uma vez que você não pode nadar. O que você precisa desesperadamente é que seu amigo se lance às águas e traga-o à praia com poderosas braçadas, para que sua vida seja salva. O que você precisa nesse instante não é só de um conselho, um bom conselho, até mesmo um conselho gracioso – você precisa ser resgatado!
Esta é nossa situação natural. Somos pecadores perdidos. Estamos mortos no pecado. Estando mortos no pecado, não podemos reviver a nós mesmos. Uma vez que estamos mortos no pecado, nossos ouvidos estão surdos ao convite do evangelho e nossos olhos estão cegos à sua luz. Precisamos de um milagre. Esse milagre ocorre quando Deus em sua graça surpreendente chama-nos de modo eficaz, através do seu Espírito, da morte espiritual para a vida espiritual, das trevas espirituais para sua maravilhosa luz. Depois de termos recebido vida espiritual, podemos nos envolver ativamente no processo de salvação – em arrependimento, fé, santificação e perseverança. Mas no ponto inicial do processo, quando ainda nada menos do que um miraculoso resgate das águas entenebrecidas do pecado, no qual, se deixados por nós mesmos, submergiremos. Isso é o que acontece na vocação efetiva.
Louvado seja Deus pela maravilha da vocação eficaz!
Busquei a Deus, e ouve então depois
Que muito antes ele me buscou
Não foi primeiro eu quem o achou:
Me achaste, Salvador
Salvos pela graça; a doutrina bíblica da salvação (São Paulo: Cultura Cristã, 1997), pp. 87-98.
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