Existe um tipo de vergonha da qual você não deve se
envergonhar. Talvez você diga: “Então, isso não é realmente vergonha”. Mas
a Bíblia o chama de vergonha, e realmente parece uma vergonha, até que um
milagre acontece em nosso coração e reverte o nosso senso de valores.
A razão por que isto é importante para mim é que ainda
estou aprendendo — às vezes, eu penso: apenas começando a aprender — como
aceitar esta vergonha. Eu digo realmente “aceitar”, não apenas tolerar, o
desagradável sentimento de ser envergonhado. Até que eu aprenda isso mais
plenamente, nunca serei, entre os incrédulos, o tipo de testemunha que Deus me
chama a ser.
Onde consegui este estranho conceito sobre aceitar a
vergonha? Eu o retirei da história de Pedro e dos apóstolos, em Atos
5. Eles foram presos e lançados no cárcere, por curarem um homem e
pregarem a Cristo (v. 18). Naquela noite, um anjo do Senhor libertou os
apóstolos e disse-lhes que fossem ao templo e pregassem “todas as palavras
desta Vida” (v. 20). Mas, novamente, o Sinédrio e os sumos sacerdotes os tomaram
em custódia e os acusaram de encher Jerusalém com a doutrina deles (v. 28). “Expressamente
vos ordenamos que não ensinásseis nesse nome.”
Pedro respondeu com ousadia, dizendo: “Antes,
importa obedecer a Deus do que aos homens” (v. 29). O Sinédrio estava pronto
para matá-los, quando Gamaliel, um mestre da Lei, se levantou e disse: “Dai
de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra vem de
homens, perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não
sejais, porventura, achados lutando contra Deus. E concordaram com ele” (vv.
38,39). Com isso, os membros do Conselho mudaram seus planos,“açoitaram-nos e,
ordenando-lhes que não falassem em o nome de Jesus, os soltaram” (v. 40).
Em seguida, lemos um dos versículos mais
impressionantes das Escrituras:
E eles se retiraram do Sinédrio regozijando-se por
terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome (v. 41).
Leia devagar estas palavras e deixe-as penetrar em sua
alma.
Observe duas coisas.
Primeira, os apóstolos foram envergonhados. Eles
sofreram “afrontas”. Ser transformado em espetáculo pelos reverenciados líderes
de seu povo, ser tratado como criminosos ímpios, ser despido até (pelo menos) à
cintura e ser ferido tão dolorosamente, o que levou ao ponto de gritar e chorar
com profundos soluços de dor — este é um momento repleto de vergonha. A Bíblia
chama isto de vergonha. E é horrível.
Segunda, eles se regozijaram nesta vergonha. Use
sua imaginação. Isto não é uma brincadeira. Não é romântico. Não é um momento
heróico e nobre, com música sublime e milhares de espectadores. É algo
terrível. A dor é excruciante. Pode resultar em morte. Não há qualquer
auxílio. É humilhante. Mas os apóstolos não protestaram. Não se perturbaram com
a perda de seus direitos. Não maldisseram os seus inimigos. Pelo contrário, os
apóstolos cantaram. Eles se regozijaram por “terem sido julgados dignos de
padecer afronta pelo nome de Jesus”.
Isso é o que pretendo dizer quando uso a expressão “aceitando
o sofrimento da vergonha”. Já chegou a este ponto? Se não, tenha coragem.
Poucos de nós já chegamos lá. Você quer ser assim? Eu também quero! O que
devemos fazer? Três coisas:
1. Oremos uns pelos outros. Sejamos
específicos. Supliquemos: “Pai, realiza uma profunda obra transformadora
em mim, de modo que eu sinta gozo, quando sou envergonhado por causa do nome de
Cristo”.
2. Meditemos frequentemente na infinita obra de
Cristo, na doçura de suas promessas e no grande sofrimento que Ele suportou
para a nossa salvação.
3. Avancemos em direção ao inexplorado território
do testemunhar para Cristo. Se surgirem os sentimentos dolorosos de vergonha,
transformemos este cântico fúnebre em uma canção de triunfo.
Assim, o mundo começará a ver o que é mais valioso no
universo: Jesus Cristo. Até que isto aconteça, pareceremos tanto com as pessoas
do mundo no que nos regozijamos, que elas serão pouco motivadas a nos darem
atenção.
Autor: John Piper
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