sábado, 22 de janeiro de 2011

A TOCHA DOS PURITANOS

A EVANGELIZAÇÃO PURITANA
Por: Joel  R. Beeke
"Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos." - Mateus 28:18-20 "E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. Ora, tudo provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois rogamos que vos reconcilieis com Deus. Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fossemos feitos justiça de Deus." – 2 Coríntios 5:17-21
Introdução
Evangelização Reformada é um tema bastante vasto. Muitas pessoas chegam a negar a sua existência, pois não crêem que exista tal coisa. Nossa esperança é, por um lado, não exagerar a força da evangelização reformada, e por outro, não diminuir as suas fraquezas. Este assunto pode melhor ser apresentado através de uma ilustração. Na América existiu um pastor que era um homem de Deus, mas tinha um problema terrível. Gostava de constantemente exagerar nas sua afirmações.
Seu conselho se reuniu, e procurou conversar com ele sobre o problema. O pastor estava consciente desta sua falha e via que precisava de ajuda. Após conversarem, chegaram ao seguinte acordo: quando o pastor, do púlpito, exagerasse em alguma coisa, um dos presbíteros daria uma leve tossida. Então o pastor saberia que deveria "maneirar" um pouco nas suas afirmações, pois estaria além dos limites da realidade. Quando chegou o domingo ele teve a sua chance de ser testado com este sistema. O pastor começou a pregar sobre Sansão. Descrevia como ele pegara trezentas raposas e como amarrou suas caudas. Estava muito envolvido na descrição desta cena e disse que quando Sansão tomou as caudas das raposas para amarrá-las, estas caudas eram do tamanho dos braços abertos de um homem (ele fez este gesto). Nesta hora o presbítero deu uma tossidinha. O pastor, então diminuiu o gesto na tentativa de dizer que as caudas eram menores, mas mesmo assim ainda exagerava. O presbítero novamente tossiu. Ele diminuiu o tamanho, porém ainda estava exagerando. Nova tossidinha. O pastor, então, não se contendo, perguntou: "Irmão, afinal de contas qual era o tamanho das caudas das raposas?". Algumas pessoas dizem que a evangelização reformada não tem "cauda" e outros dizem que sua "cauda" é imensa. Queremos lidar de uma forma bem realista com os pontos fortes e os pontos fracos da evangelização reformada. Focalizaremos alguns princípios neo-testamentários de evangelização. Eles estão de fato no Novo Testamento. Como foi que Calvino construiu em cima destes princípios a sua própria evangelização, sendo pai da sistematização da verdade reformada e também da sistematização da evangelização reformada? O que os puritanos têm a nos dizer sobre a evangelização reformada? Como podemos tomar esta tocha da evangelização reformada, hoje, e passá-la adiante às nossas comunidades e à nação?

Definindo a evangelização
O que é a evangelização? Há muitas definições que são dadas. Poderíamos passar muito tempo só definindo-a. Mas quero dizer algumas coisas. Em primeiro lugar não devemos definir a evangelização nos termos daqueles que vão receber a mensagem. Isso pode nos levar a comprometer a mensagem e a mudá-la. Em segundo lugar, também não devemos definir a evangelização em termos dos seus resultados. Pois dessa forma, você diria que William Carey não estava fazendo evangelização nos primeiros anos em que ele esteve na índia, porque por muitos anos ele não viu nenhum convertido. Em terceiro lugar, não devemos definir a evangelização em termos dos métodos usados. Dessa forma, se pensarmos assim, os fins vão justificar os meios e nós vamos terminar naquilo que é tão comum hoje, a chamada "evangelização pragmática".  Essa "evangelização" está mais preocupada com os números do que com a verdade. Nós precisamos definir a evangelização em termos do significado da própria palavra. Evangelização vem de uma palavra grega que significa "boas novas". Assim, poderíamos definir a evangelização como sendo a proclamação das boas novas, a proclamação do evangelho. Nele buscamos, pela graça de Deus, a conversão de pecadores. Num sentido mais amplo podemos dizer que inclui a edificação dos filhos de Deus. Inicialmente, a evangelização procura a conversão de pecadores e no sentido mais amplo, procura o discipulado daqueles que já nasceram de novo. Esta palavra grega aqui referida, euaggélion, está registrada 124 vezes no Novo Testamento. Portanto, a Bíblia é um livro evangelístico. Nosso Deus é um Deu evangelístico.

A tocha acesa no Velho Testamento
Na verdade, a tocha da evangelização foi acesa originalmente, no Velho Testamento. Em primeiro lugar foi acesa pelo próprio Deus na primeira promessa messiânica que Ele deu a Adão e Eva, lá no Éden. Vemos isso em Gênesis 3:15: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu Ihe ferirás o calcanhar". Aqui, Deus Jeová está agindo como um Deus evangelista. Ele está interceptando Adão e Eva numa relaçãopactuai que eles estavam tendo com satanás e traz para eles a promessa do Messias que haveria de vir: a semente da mulher que haveria de esmagar a cabeça da serpente. Assim, Deus acendeu a tocha antes mesmo de Adão deixar o paraíso e, ainda lá, Ele revela Seu Filho que haveria de vir. Ele próprio é essa tocha! Para que nós possamos lançar um bom alicerce, devemos dizer que o próprio Deus é o evangelizador por excelência. Através do Seu próprio Filho, e por meio dEle, o coração de Deus bate de uma forma evangelística. Ele não pode negar-Se a Si mesmo. Dessa forma Deus demonstra que tem os meios para levar avante este projeto evangelístico. Ele leva à frente estas boas novas através de todo o Velho Testamento. Através de toda a linhagem de Sete, Noé e de todos os patriarcas; por sua vez, esses patriarcas passam essa tocha para os filhos de Israel. A nação de Israel leva a tocha como quem leva a alma da evangelização. Israel é a alma que conduz à evangelização nos tempos do Velho Testamento, no meio do mundo gentio. Por fim, o último profeta do Velho Testamento, João Batista, foi privilegiado porque ele levou a tocha da evangelização à era do Novo Testamento.



A tocha acesa no Novo Testamento
Logo que o Novo Testamento se abre, nós encontramos a tocha, a Pessoa do Senhor Jesus Cristo, que é "as boas novas", o evangelho; Ele é tanto o Salvador quanto a salvação. Quando Cristo começa a realizar o Seu ministério, bem cedo, ele começa a dar aos Seus discípulos instruções bem específicas quanto ao levar a tocha da evangelização. Quando Jesus ressuscitou dos mortos, deu lhes a grande comissão como vemos em Mateus, capítulo 28. Esta grande comissão pergunta e responde importantes questões.
Por que e como evangelizamos?
A nossa resposta é esta: evangelizamos por compaixão aos homens e mulheres que estão perecendo. Evangelizamos como Cristo, pois Ele chorou sobre a cidade de Jerusalém e nós devemos chorar sobre Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e sobre todo o Brasil. Quando vemos milhões que estão morrendo em nossa volta, estranhos a Cristo, sem Deus e sem esperança no mundo, alienados de Deus, inimigos de Deus, rebeldes como outrora nós também fomos, nossos corações precisam sangrar; nossos olhos, chorar; nossas orações, subir aos céus e assim seremos motivados a evangelizar por causa da compaixão. Há outros motivos profundos que nos impelem à evangelização. Mateus, capítulo 28, deixa de forma absoluta e clara a grande motivação que é uma ordem de Jesus. Se nós amamos alguém, desejamos agradar-lhe e obedecer-lhe. Se amamos a Cristo queremos obedecer à Sua ordem e fazer a Sua vontade. Quando Cristo diz, "ide e ensinai", a Sua ordem em si é a nossa grande motivação. Naturalmente essa grande motivação é uma lição que nos vem através do conceito da soberania de Deus. Sempre fomos uma minoria na tradição reformada e uma outra minoria procura usar a soberania de Deus de uma forma, às vezes, não bíblica. Calvino diria que isso é como um "veneno" que está sobre, o conceito da soberania de Deus. Esta minoria, às vezes, procura diminuir a importância e o papel da soberania na salvação das pessoas. A ilustração clássica disso é o exemplo de William Carey. Quando ele explicou seu chamado para ir para a Índia, um dos que estavam naquela reunião lhe disse: "Sente-se, jovem, se Deus quer realmente salvar a Índia, Ele pode salvá-la sem a ajuda de William Carey ou de qualquer outro". Esta é uma afirmação terrível. Percebam que aquelas pessoas estavam separando a doutrina da soberania de Deus dos meios através dos quais essa soberania é exercida.
Os meios que Deus usa no exercício da Sua soberania são homens pecadores como nós. Jesus disse: "Ide e ensinai". Jesus não está dizendo que se deixe a evangelização na esfera da soberania de Seu Pai. Também não está dizendo que devemos ficar apenas em uma sala ensinando. Há pessoas que têm um grande dom de ensinar, mas não saem para levar a mensagem de boas novas. Por outro lado, uma das grandes calamidades da Igreja hoje, é o fato de igrejas, que têm grandes alvos evangelísticos, possuírem líderes com tão pouca capacidade de ensino. Da mesma forma, igrejas que têm muitos com o dom de ensinar, freqüentemente apresentam baixos alvos evangelísticos. Precisamos voltar à ênfase de Jesus, que era a colocação das duas coisas juntas - ir e ensinar! Estas duas ações precisam estar juntos. Precisamos ser motivados à evangelização reformada pela obediência ao nosso Mestre. Quero citar mais um motivo. Devemos ser impelidos pelo nosso relacionamento com Deus. Paulo diz que se conhecemos a ira de Deus, nós precisamos persuadir os homens, pois ele sabia como são os homens e mulheres sem Deus. O apóstolo Paulo foi um deles, mas sabia o que significava ser salvo e ter um novo relacionamento com Jesus. Sabia a terrível realidade de uma alienação de Deus; também sabia o poder da reconciliação com Deus. Em 2 Coríntios, capítulo 5,ele fala de uma forma poderosa desta reconciliação. Nos versículos 20-21 ele diz: "De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconciliásseis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus". Paulo estava, pois, motivado por aquela paixão e pelo desejo ardente de agradar a Cristo, como uma criança em profunda reverência por seu pai. Como fruto de uma grande apreciação e amor por Cristo. Todos os diferentes aspectos dos atributos de Deus e o relacionamento daqueles que crêem neles, motivaram Paulo a evangelizar. Ele sempre procurou glorificar a Deus em todas estas coisas: a soberania de Deus, o amor de Deus, a graça de Deus. Esta foi a motivação mais profunda da evangelização de Paulo. Não somente uma compaixão humana, não somente a ordem de Cristo, mas um desejo ardente de glorificar a Deus a quem ele conhecia. Ele tinha absoluta certeza de que qualquer um que cruzasse o caminho de Cristo, um dia estaria perante o julgamento de Deus e teria de responder diante dEle por todo o bem ou mal que fizera no seu corpo, nesta vida.
Quando nós, pastores, ficamos de pé diante da nossa congregação, semana após semana, quão prontos estamos para esquecer que, mesmo que se passem cem anos, se o Senhor demorar a voltar, nenhuma pessoa na nossa congregação vai escapar do julgamento final de Cristo? Em toda a nossa evangelização, estamos lidando com almas viventes que poderão estar alienadas de Deus para sempre, ou que irão usufruir da presença gloriosa de Jesus eternamente. Há uma diferença radical entre estas duas coisas. A grande gloria que Deus recebe na conversão de pecadores motivava Paulo a fazer missões e evangelizar.

A quem evangelizar?
A grande comissão responde a uma segunda pergunta. A quem devemos evangelizar? Mateus nos diz que devemos ir a todas as nações. Ide e ensinai a todas as nações. Há algo maravilhoso neste mandamento para a evangelização reformada, porque o evangelista reformado não fica apenas vendo a soberania de Deus no ato de eleger, pois este ato não é algo que impede o sucesso da evangelização, e sim, algo que o confirma. Quando Cristo nos envia a todas as nações, Ele vai reunir delas, aqueles que vão servi-lo e temê-lo na Sua própria Palavra. Ele vai usar a loucura da pregação para salvar aqueles que devem e precisam crer. Que encorajamento maravilhoso para nós evangelizarmos, pois onde formos passando no meio desta torrente de depravação humana, não há nenhuma expectativa em nós ou na semente em si. Algumas sementes vão cair em solo rochoso ou à beira do caminho, e a nossa única esperança de que Deus Se agrade é que Ele venha a usar-nos como barro em Suas mãos para cumprir o Seu propósito de amor e soberania em termos da eleição. Dessa forma, Deus vai atrair pecadores a Si mesmo. Em Marcos 16:15 ("Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura") a grande comissão diz algo um pouco diferente. Pregar o evangelho a toda criatura! Mateus disse, "a todas as nações". Marcos particulariza a grande comissão. A ênfase é que o evangelho deve, não só ser levado a todas as nações, mas a todo homem, mulher, moço e moça que habitam nelas. O evangelho é o oferecimento de Deus aos pecadores. São as boas novas de Cristo e está disponível para todos.
São boas novas de que Cristo os está convidando a virem a Ele como estão. As boas novas, entretanto, não consideram que cada pessoa tem força em si mesma para ir a Deus. As boas novas não afirmam que a pessoa é salva meramente por uma "decisão" por Cristo. A mensagem das boas novas não é que você vai declarar a cada um que ele está salvo. Não significa contar a cada um, que definitivamente Cristo morreu por você, não é simplesmente levar as pessoas a saberem que Cristo morreu por elas. Muitos pregadores pregam assim. Eles dizem: "Jesus morreu por todos e tudo que você tem de saber é crer que Ele morreu por você ". O que está errado com isso? No momento em que eu creio que Cristo morreu por cada um, então, eu posso concluir que há uma espécie de acordo que afirma: se Ele morreu por todos, então, morreu também por mim. Os pregadores que pregam assim, persuadem as pessoas a pensarem que estão salvas, mesmo sem ter recebido nenhum toque do Senhor. Contudo, apenas um assentimento intelectual sem essa bênção da fé salvadora, não salva.
Uma fé salvadora pessoal, um arrependimento pessoal, uma convicção pessoal dos pecados e uma rendição diante de Deus de todas as suas justiças que são trapos diante de Deus, são ingredientes necessários para que você encontre a real salvação. Se você não compreende o que é ser um pecador perdido e condenado perante Deus, como pode apreciar a riqueza do evangelho? Dessa forma, a grande comissão nos encoraja a levar o evangelho a todas as nações, ao homem como um ser integral. Não leve o evangelho a pressionar apenas a vontade do homem, pois o evangelho afeta a vontade, as afeições, a totalidade do ser humano. Posteriormente veremos como os reformadores e puritanos praticaram esse tipo de evangelização. Quando eles apresentavam a Cristo de uma forma integral para um ser integral, acabavam proclamando todo o conselho de Deus.
Onde iniciar?
Finalmente, a grande comissão certamente inclui que o evangelho precisa ser levado de preferência às ovelhas perdidas da casa de Israel, como lemos em Mateus 10:6. Assim, quando Jesus deu a ordem de evangelizar aos Seus discípulos, Ele começou com Jerusalém e de lá deviam levar o evangelho a Samaria, Judéia e até os confins da terra. Traduzindo a idéia para os dias de hoje, esta ordem diz que nós não devemos apenas evangelizar os judeus mas devemos começar em nossos lares, em nossas igrejas. Dentro do ministério pastoral devemos enfrentar o fato de que dentro da Igreja de Deus há muitas pessoas que não São verdadeiramente salvas. Talvez tenham até sido batizadas, talvez sejam membros comungantes, vivam uma vida decente, todavia não foram salvas. Podem até ter um bom conhecimento bíblico e até serem professores de Seminários, pastores, ou presbíteros, mas não são diferentes de Nicodemus que foi um mestre em Israel e no entanto não havia nascido de novo. Jesus diz ainda hoje a cada um de nós e a nossas igrejas: "vocês precisam nascer de novo". É possível que nossa a evangelização, às vezes, seja muito fraca porque há pouca experiência do que significa nascer de novo. Jesus passou a Sua tocha da evangelização para Seus apóstolos e discípulos e a acendeu de forma maravilhosa no dia de Pentecoste e nas semanas que se seguiram. O mundo precisa ser colocado em chamas por esta tocha da evangelização. No dia de Pentecoste Deus vindicou a Sua própria Palavra conforme lemos em João 3:16: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna". Milhares de pessoas foram feridas nas suas consciências e foram levadas a um arrependimento autêntico naquele dia, depositando sua fé em Cristo. Mas a novidade que começou no dia de Pentecoste foi disseminada e começou a usar de uma forma poderosa o apóstolo Paulo para levar avante a tocha da evangelização.

Paulo, o evangelista
Paulo foi de modo peculiar qualificado para esta tarefa, talvez mais do que qualquer pessoa da sua época. Ele entendia tanto a — mentalidade hebraica, quanto a mentalidade helênica. Ele teve um "seminário" de três anos na Arábia, durante o qual Deus o treinou e o moldou para ser o apóstolo dos gentios. A atividade evangelística de Paulo, levando a tocha da evangelização, foi e ainda é amplamente expandida hoje. Ele levou o evangelho aos seus irmãos na carne, levou-o até a Ásia, Europa, e pela inspiração do Espírito Santo, trouxe a tocha até nós em suas Epístolas. É muito importante tomarmos um pouco da evangelização de Paulo. A evangelização é algo muito importante no ministério de Paulo e precisamos-nos "agarrar" ao seu padrão de evangelizar. De uma coisa nós não podemos fugir, quando lemos suas cartas: Paulo evangelizava de uma forma doutrinária e teológica. Não evangelizava contando anedotas ou pequenas histórias. Há, hoje, pessoas que afirmam que temos de colocar a doutrina de lado para podermos evangelizar. Pensam que quando evangelizamos não devemos ser didáticos. Paulo rejeitou isso de forma prática. Grandes porções de suas Epístolas estão preocupadas, por exemplo, com a lei. Ele faz com que uma apresentação da lei seja seguida pela apresentação do evangelho e então aplica esta realidade à vida dos seus leitores com ensinamentos éticos e experimentais. Esse é o padrão da evangelização de Paulo. Queremos apresentar aqui algumas ramificações deste padrão de evangelização que Paulo usava.

Consciência teista
O primeiro resultado do seu padrão evangelístico é: Paulo pressupõe, em todas as suas cartas, uma consciência teista em cada pessoa. Na tradição reformada, somos profundamente devedores a João Calvino e a Cornelius Van Til porque eles estabeleceram o que nós hoje chamamos de teologia préssuposicional. Calvino afirma que a semente da religião está em cada
homem. Dessa forma, o pensamento reformado sempre entendeu que cada pessoa no mundo tem certo sentimento de Deus. Este conhecimento nato pode ser muito distorcido, misturado com pecado, mas aquela semente, no entanto, está lá. Tanto Calvino quanto Van Til tiram estes pressupostos teológicos de Paulo. Paulo argumenta de forma muito clara, por exemplo, na sua carta aos Romanos e ele parte de uma posição de pressuposição que afirma que, mesmo os pagãos têm alguma consciência de um ser supremo. O que aprendemos disso é o seguinte: nós não devemo gastar muito tempo discutindo com uma pessoa sobre a existência de Deus. Antes, enquanto evangelizamos, pressupomos que, no fundo do coração, eles têm consciência da existência de Deus. Os reformados afirmam que não existe a condição do ateu genuíno. Um ateu é alguém que deseja se convencer que não existe Deus. Já tive duas vezes oportunidade de conversar com duas pessoas que afirmavam que eram atéias. No entanto, o que era estranho é que exatamente os dois queriam conversar sobre Deus. Dessa forma estavam querendo se convencer de que Deus não existia.
O que Paulo está dizendo é o seguinte: quando você estiver lidando com uma pessoa que não crê e fala do seu relacionamento com Deus, o que você precisa fazer é apresentar a Deus, como está em Romanos, capítulo primeiro. Você não deve colocar como alvo provar filosoficamente que Deus existe. O que deve ser feito é apelar para a consciência da pessoa. Paulo diz em Romanos, capítulo 1, que esta consciência está apertando, fazendo desaparecer o conhecimento de Deus. Quando nós pregamos o evangelho, evangelizamos pessoas que têm uma consciência teista como seres humanos.

Mensagem de despertamento
Em segundo lugar, Paulo ensina que nossa mensagem evangelística precisa ser uma mensagem de despertamento. Quando Paulo dirige-se a alguém que está evangelizando, ele começa a falar a respeito do pecado e da grande necessidade do ser humano. Ele sempre procura construir um sentimento de necessidade por parte da pessoa. Então, seu alvo é a consciência. Esta não é uma tarefa fácil e sem o Espírito Santo é uma tarefa impossível, porque é necessário o poder divino, o Todo-poderoso, para quebrar um homem e reduzi -lo a nada. Assim o homem vê o seu pecado e enxerga que não é outra coisa senão um grande pecador e não pode dizer outra coisa senão: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!". Isso é exatamente o que Paulo procura fazer em Romanos, capítulos 1, 2 e 3, trazendo, tanto judeu como gentio, a um sentimento de culpa diante de Deus, para que toda boca seja fechada e todo o mundo seja considerado culpado perante Deus. Por isso, Paulo pregava a lei a fim de trazer o evangelho. Com a evangelização eficaz nós vamos levar pecadores, pelo Espírito, a serem confrontados face a face com a realidade de um Deus vivo e santo, que Se ira e que executa julgamento; na realidade da maldição da lei que vem contra todos que a transgridem. Precisamos levar pecadores ao Deus do Sinai, ao Deus de Isaías, capítulo 6, para podermos levá-los ao Deus do Calvário. Nosso alvo, portanto, é levá-los a Cristo e a única maneira de levá-los a Cristo é mostrar a maneira como Cristo Se torna apreciado e válido no coração daqueles que dEle precisam.

Pregar Cristo - a reconciliação
Finalmente, Paulo prega não apenas de forma que usa pressupostos, de uma forma que desperta e aviva, mas prega de forma cristológica. Ele proclama a realidade gloriosa do evangelho. No Novo Testamento, no grego, há uma palavra (paralambanó) que expressa a idéia de receber alguma coisa e passá-la adiante. Todas as vezes que esta palavra é utilizada (paralambanó), ele sempre a usa em conexção com Jesus. A sua idéia é a de que Cristo precisa ser recebido pela fé e passado à frente. Ele precisa ser "tradição". Paulo quer fazer a passagem desta "tradição", ou seja, deste evangelho; ele quer passar especialmente a mensagem da reconciliação. Ele está com tal peso na alma, que o amor de Cristo o constrange. Esta reconciliação é absolutamente necessária. Sem ela os pecadores estarão alienados no inferno, para sempre, e alienados do Seu criador. Esta reconciliação encontra a suarealização na cruz por Cristo, e agora precisa ser realizada no coração dos pecadores pelo poder do Espírito Santo. Ele aplica esta reconciliação, advinda da cruz, aos corações dos pecadores. A idéia de reconciliação é uma idéia de troca. Paulo volta a este assunto várias vezes na sua  teologia. Jesus é aquele que troca de lugar com o pecador carente, em necessidade. O evangelho diz que nós é que merecíamos estar naquela cruz e sermos punidos por nossos pecados. Entretanto o que é glorioso é que Jesus vem e toma o nosso lugar naquela cruz. O apóstolo Paulo diz em 2 Cor.5:21: "Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus". Cristo toma os nossos pecados, toma para Si próprio a morte que nós merecíamos e paga o preço plenamente. Ele dá ao pecador a Sua salvação, a Sua santidade, todos os benefícios gloriosos e, acima de tudo a Sua própria Pessoa . Na reconciliação Cristo faz duas coisas para cada um dos filhos de Deus, os quais eles jamais poderiam fazer por si próprios. Estas duas coisas são feitas por nós, doutra forma não seríamos salvos. Em primeiro lugar, a nossa dívida completa precisa ser paga. Pecado é uma coisa tão séria,que traz a morte, conforme nos diz a Bíblia, em Romanos, capítulo 6. Jesus disse que estava pronto para morrer pelos pecadores. Jesus, nesta obediência passiva, suportou a ira de Deus por causa dos nossos pecados. Paulo diz que Ele Se deu a Si mesmo por Sua Igreja - sofrendo a morte na cruz. A segunda coisa que Ele faz e que nós não podemos fazer, é que Ele, de forma perfeita, obedece à lei em nosso lugar. A lei exige que amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Cristo fez isso, de forma perfeita, por 33 anos. Não por Ele mesmo, mas por aqueles pecadores a quem salvará. Chamamos a isso de Sua obediência ativa e dinâmica, pois dessa forma ele obedeceu a lei. Por Sua obediência ativa e passiva, obedecendo à lei e pagando o preço do pecado, Ele satisfez a justiça de Deus. Dessa forma Deus está reconciliado com o pecador. Ele concede o Seu Espírito para que esse mesmo Espírito opere a Sua salvação na mente e no coração dos pecadores e o pecador perca todo seu sentimento de justiça rendendo-se inteiramente ao caminho da salvação de Deus, aos pés da cruz. Ao serem assim reconciliados com Deus, lá na cruz, Deus está reconciliado com o homem e o homem com Deus. Através da cruz Deus leva os pecadores a se reconciliarem com Ele mesmo. Percebe que tudo está centralizado na cruz? O apóstolo Paulo diz que a cruz exige uma vida que produza frutos. Se você já esteve ali na cruz e já experimentou a reconciliação com Deus, por Jesus Cristo, você já percebeu que deveria estar onde Jesus esteve, percebeu que merecia os cravos nas mãos e pés. Você que merecia aquela coroa de espinhos e suas costas sangrando, agora sabe que, ao invés de você, foram seus pecados que foram cravados naquela cruz. Ele experimentou a morte e você compreenderá que Ele permitiu que você, pelos seus pecados, O pregasse na cruz do Calvário, como resultado de um amor puro a pecadores que não são dignos nem merecedores desse amor, por causa do Seu amor ao Pai, à vontade soberana do Seu Pai. Como você pode viver sem estar fervendo de amor pelo Pai, Filho e Espírito Santo? Acaso você poderia dizer como Samuel Rutherford: "Eu não sei qual das três pessoas da Trindade eu mais amo, porém isso eu sei, eu amo a todas três"? Quando estamos motivados pelo grande amor de um Pai que deu Seu único Filho, e somos movidos pelo Filho que Se deu a Si mesmo, e somos movidos pelo Espírito Santo que tem a paciência de operar em pecadores tão difíceis como nós, somente podemos caminhar de uma forma gostosa e desejosa com este Deus Triúno. Em Colossenses 2:6-7, o apóstolo Paulo diz: "Ora, como recebeste a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graça". Para Paulo, a mensagem da evangelização é a mensagem da reconciliação que prega um Cristo completo  mensagem que envolve o Seu senhorio, envolve ser salvo do pecado e ser salvo para servir. O pecador recebe esta salvação gloriosa, tão -somente pela obra salvadora do Espírito. Justificação pela fé somente, para aqueles que estão vivendo sem Deus, produz neles o fruto de serem pessoas de Deus.
Vamos, portanto, levar em nossa evangelização todas estas coisas. Como pode a fé despojar o pecador de todo o seu sentimento de justiça? Como pode levá-lo ao Senhor Jesus Cristo? Como a fé leva este pecador a viver uma nova vida em Cristo? Assim, percebemos que Cristo é o alfa e o ômega de toda a nossa pregação, de toda a nossa evangelização. É somente nEle que temos Shalom, paz. Este foi o grande chamado de Paulo. Este foi seu alvo, que envolve todas as Escrituras, e Cristo, para o homem como ser total.

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