terça-feira, 26 de junho de 2012


O Caráter da Adoração
Dr. Robert Godfrey
Em terceiro, a adoração pode se referir ao tempo quando os cristãos se reúnem oficialmente, como uma congregação, para louvar a Deus. Esta forma de adoração é recomendada e ordenada nas Escrituras. “Não deixemos de reunir-nos, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele Dia” (Hebreus 10:25). O Salmista celebra este privilégio da adoração corporativa:
Louvai ao SENHOR.
Louvarei ao SENHOR de todo o meu coração,
na assembléia dos justos
e na congregação. (Salmos 111:1)
Claramente Deus quer que Seu povo se reúna como congregação, expressando que este povo é o corpo de Cristo, adorando-O conjuntamente.
Este terceiro uso da adoração, a adoração corporativa, merece atenção especial por duas razões. Primeiro, a arena da adoração corporativa é onde a maior parte da guerra da adoração está sendo travada. Mudanças na adoração corporativa precisam de exame cuidadoso em nosso tempo.
Segundo, muitos cristãos parecem ter uma medida de preconceito contra a adoração corporativa como uma prioridade na vida dos crentes. Eles parecem crer que a adoração oficial da igreja não é muito importante. Eles acham-na muito formal e impessoal. Eles sentem que os momentos individuais de oração e leitura da Bíblia, ou as experiências de pequenos grupos, são muito mais importantes no cultivo de uma proximidade com Deus do que a adoração corporativa. Algumas das recentes mudanças na adoração corporativa refletem um esforço para fazê-la mais parecida com a atividade de um pequeno grupo. Contudo, à medida que examinarmos o ensinamento da Bíblia sobre a adoração e o seu conteúdo, vemos que a adoração corporativa é vitalmente importante para todo cristão obediente e em crescimento.
Agradando a Deus em Nossa Adoração
Um Texto Crítico: Hebreus 12:28-29
O livro de Hebreus é particularmente importante aqui, pois ele mostra a relação entre a adoração do Antigo Testamento e a adoração do Novo Testamento, e também porque ele chama atenção à unidade da nossa adoração como povo neo-testamentário de Deus. Hebreus 12:28-29 declara:
Pelo que, recebendo nós um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e temor; pois o nosso Deus é um fogo consumidor.
Esta passagem nos direciona a dois elementos chaves para o nosso pensamento sobre adoração: primeiro, o caráter de Deus como o objeto de nossa adoração, e segundo, nossa resposta a Deus na adoração.
1. O Caráter de Deus.
A primeira verdade sobre a natureza de Deus que precisamos sempre lembrar na adoração é que o nosso Deus é uma Trindade. O único Deus existe eternamente em três pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo. Este aspecto da natureza de Deus não está explícito em Hebreus 12:28-29, mas está assinalado no contexto imediato. Assim, Hebreus 12:23-24 nos lembra que na adoração, nos chegamos pela fé ao Deus vivo e a Jesus, que é “o mediador dum novo concerto”. Aqui, duas das pessoas da Trindade são distinguidas.
Como nosso Deus é triuno, assim, nossa adoração deve ser trinitariana. Deus em Sua unidade é um objeto apropriado de adoração, mas assim são também cada uma das pessoas da Deidade. Nós adoramos a Deus, e também adoramos o Pai, o Filho, e o Espírito Santo. Ao adorar qualquer uma das pessoas divinas, estamos adorando toda a Deidade, pois Deus é um.
Nossa adoração pode se focar em qualquer uma das pessoas divinas, em pontos particulares, pois a própria Bíblia nos mostra que cada uma das pessoas da Trindade está associada com cer14
Dr. Robert Godfrey
tos atos divinos particularmente. Por exemplo, na Bíblia o Pai está particularmente ligado ao planejamento da salvação, para reconciliar os pecadores consigo mesmo. O Filho está ligado à realização da salvação, como o Deus-Homem, vivendo, morrendo e ressuscitando no lugar de pecadores. O Espírito está ligado à aplicação da salvação, trazendo pecadores a Cristo, e dando-lhes fé e vida nova.
A adoração cristã reflete a ênfase da Bíblia sobre a obra de cada pessoa na Deidade. O Pai é particularmente o objeto da nossa adoração. Freqüentemente oramos, como Jesus nos ensinou, “Pai Nosso”. O Filho é o mediador da nossa adoração. Jesus abriu o caminho ao Pai para nós, pela Sua obra salvadora, e nós sempre nos achegamos ao Pai em Seu nome. O Espírito capacita e abençoa nossa adoração. Ele aquece os nossos corações, e nos traz, não para Si mesmo, mas a Jesus e à Sua Palavra. A própria natureza de Deus nos conduz a adorar o Pai, através do Filho, pelo Espírito Santo.
O segundo aspecto do caráter de Deus que vemos explícito em Hebreus 12:28-29 é que Deus é um Deus salvador. Ele preparou um reino inabalável de vida eterna para aqueles que Lhe pertencem. Este reino pertence a Jesus Cristo (Hebreus 1:8), que é o Salvador do Seu povo e o Mediador entre o homem e Deus em toda nossa adoração. Jesus e Seu Evangelho devem sempre permanecer no cerne da nossa adoração. Devemos lembrar que Ele é a eterna segunda pessoa da Trindade, feito homem para ser nosso Salvador. Devemos nos regozijar em Sua vida perfeita de obediência por nós, em Sua morte na cruz onde Ele carregou todos nossos pecados e em Sua gloriosa ressurreição para ser nosso eterno Salvador e Sumo Sacerdote. A adoração falha completamente se Jesus Cristo não estiver no centro. Sua pessoa e obra devem iluminar a adoração do Seu povo. Ele faz Deus completamente conhecido e completamente acessível a nós. Ele é nosso refúgio e fortaleza, um socorro bem presente na hora da angústia (Salmos 46:1). Ele nos salva dos nossos pecados, e nossa adoração deve celebrá-Lo.
O terceiro aspecto do caráter de Deus que vemos em Hebreus 12 é que Deus é um Deus santo, um Deus que é zeloso quanto a Sua adoração. Ele é um Deus que declara Sua oposição ao pecado e que exige um viver santo entre o Seu povo. A epístola aos Hebreus está citando Deuteronômio 4, quando ele declara que Deus é “um fogo consumidor”. Deuteronômio 4 chama o povo de Deus à fidelidade na totalidade de suas vidas, mas especialmente na adoração:
“Guardai-vos de que vos esqueçais do pacto do SENHOR vosso Deus, que ele fez convosco, e não façais para vós nenhuma imagem esculpida, semelhança de alguma coisa que o SENHOR vosso Deus vos proibiu. Porque o Senhor vosso Deus é um fogo consumidor, um Deus zeloso” (vv. 23-24).
Esta passagem em Deuteronômio claramente descansa sobre o segundo dos Dez Mandamentos, que proíbe a falsa adoração, como temos visto. O caráter santo de Deus deve ecoar tão claramente através da nossa adoração, quanto o caráter salvador de Deus.
Estas passagens mostram que o Senhor considera Sua adoração muito seriamente. Elas nos mostram mui especificamente que nossa adoração deve refletir tanto a grande obra salvadora de Deus em Cristo como Seu santo zelo pela pureza da adoração. Somente tal adoração será aceitável a Ele. Quando Hebreus 12:28 fala de adoração aceitável, ele quer dizer adoração que é primeiramente aceitável a Deus.
Esta prioridade precisa ser reafirmada especialmente hoje. Freqüentemente hoje, quando as pessoas falam de adoração aceitável, eles querem dizer adoração que é aceitável a eles mesmos ou, talvez, aceitável especialmente àqueles que não são membros da igreja (os visitantes – NE). Embora a adoração deva falar claramente à congregação reunida, a Bíblia insiste que a adoração deve, acima de tudo, ser aceitável a Deus. E nós devemos lembrar que só podemos saber o que é aceitável a Deus através de um estudo cuidadoso da Sua Palavra.
2. Nossa Resposta a Deus.
Como devemos responder na adoração a este Deus santo e salvador? Hebreus 12 não somente especifica o caráter de Deus para nós na adoração, mas também clarifica o caráter de nossa resposta a Deus: nossa adoração é para ser caracterizada por gratidão e temor. Especialmente em reação à obra salvadora de Deus, devemos ser gratos e cheios de alegria. Os Salmos freqüentemente expressam esta resposta:
Cantai alegremente a Deus, nossa fortaleza; erguei alegres vozes ao Deus de Jacó! (Salmos 81:1)
Vinde, cantemos alegremente ao Senhor, cantemos com júbilo à rocha da nossa salvação. Apresentemo-nos diante dele com ações de graças, e celebremo-lo com salmos de louvor. (Salmos 95:1-2)
Servi ao SENHOR com alegria, e apresentai-vos a ele com cântico. (Salmos 100:2)
Pois me alegraste, SENHOR, pelos teus feitos; exultarei nas obras das tuas mãos. (Salmos 92:4)
Nossa resposta a Deus deve ser de grande alegria e satisfação pela obra salvadora de Jesus. A gratidão deve se manifestar em muitas partes do culto de adoração. Os Salmos nos lembram que a música é um dos modos-chave no qual expressamos nossa alegria e gratidão a Deus. (Olharemos de uma maneira mais completa para a música na adoração mais tarde em nosso estudo). Outras manifestações de gratidão incluem oração e resposta sincera à Palavra pregada.
Em resposta particularmente à santidade de Deus, experimentamos temor e reverência diante dEle. Os Salmos também nos mostram esta reação:
Adorai ao SENHOR na beleza da santidade; tremei diante dele toda a terra. (Salmos 96:9)
O SENHOR reina, tremam os povos; ele está entronizado sobre os querubins, estremeça a terra. O SENHOR é grande em Sião, e
Agradando a Deus em Nossa Adoração
exaltado acima de todos os povos. Louvem o teu nome, grande e tremendo; pois é santo. És Rei poderoso que amas a justiça; estabeleces a eqüidade, executas juízo e justiça em Jacó. És Rei poderoso que amas a justiça; estabeleces a eqüidade, executas juízo e justiça em Jacó. (Salmos 99:1-5)
De vez em quando, na adoração, deve haver uma reflexão séria e sóbria. À medida que nos encontramos com o Deus que criou o céu e a terra, que deu a Lei no Monte Sinai, e que demonstrou Sua ira contra o pecado em Seu Filho no Calvário, devemos nos encher de reverente temor. Deveríamos ficar literalmente e totalmente aterrorizados quando chegamos à presença Deus na adoração. A reverência real nunca é pesada ou tediosa, mas é profunda e emocionante.
Hoje estas duas respostas, alegria e reverência, são freqüentemente colocadas em oposição uma à outra. Um tipo de adoração é chamado alegre, exultante, e exuberante, enquanto outro tipo é chamado reverente, relaxante e respeitoso. Contudo, nas Escrituras, alegria e reverência não são antitéticas, mas sempre complementárias. A adoração pode ser alegremente reverente e reverentemente alegre. Alegria e reverência sempre devem estar unidas em nossa adoração.
Servi ao SENHOR com temor, e regozijai-vos com tremor. (Salmos 2:11)
O SENHOR reina, regozije-se a terra; alegrem-se as numerosas ilhas. Nuvens e escuridão estão ao redor dele; justiça e eqüidade são a base do seu trono. Adiante dele vai um fogo que abrasa os seus inimigos em redor. Os seus relâmpagos alumiam o mundo; a terra os vê e treme... Sião ouve e se alegra, e regozijam-se as filhas de Judá por causa dos teus juízos, SENHOR. (Salmos 97:1-4,8)
Enviou ao seu povo a redenção; ordenou para sempre o seu pacto; santo e tremendo é o seu nome. (Salmos 111:9).
Esta combinação de alegria e temor nem sempre podem ser fáceis de alcançar, mas ela deve ser nosso objetivo. Devemos lembrar que reverência nem sempre significa quietude, e alegria
Dr. Robert Godfrey
nem sempre significa barulho. Alegria e reverência são as primeiras de todas as atitudes do coração pelas quais procuramos expressões apropriadas na adoração. A alegria pode ser intensa no cântico de uma música muito serena. A reverência pode ser expressa num cântico turbulento.
A adoração protestante tradicional tem provavelmente sido forte na reverência, e o que tem sido chamado “adoração contemporânea”, freqüentemente parece entusiasticamente alegre. Mas, proponentes de cada aproximação devem perguntar se suas visões alcançam um equilíbrio bíblico. A adoração tradicional pode proceder tão mecanicamente e formalisticamente que a emoção parece ausente. A adoração contemporânea pode ser tão insistente sobre a alegria e o excitamento que a reverência e a alegria podem ser perdidas.
À medida que procuramos o equilíbrio, devemos começar lembrando que a adoração corporativa é um encontro com o nosso Deus, que é um fogo consumidor; e para isto acontecer, devemos conhecer a vontade de Deus com respeito a como devemos adorar. Este conhecimento vem somente através do conhecimento da Sua Palavra.

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